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CULTURA POPULAR
E TRANSFORMAO SOCIAL

A REVOLUO COMERCIAL
O ltimo captulo discutiu uma longa srie, parcialmente bem-sucedida, de tentativas de reformar a cultura dos artesos e camponeses, por parte de alguns membros 
da minoria culta. Mas  bastante claro que as transformaes nem sempre ocorrem s porque algum quer. De fato, entre 1500 e 1800, a cultura popular europia tomou 
rumos que ningum pretendera, rumos que nenhum contemporneo poderia prever  na verdade, os contemporneos tinham uma conscincia apenas parcial das transformaes 
pelas quais estavam passando. As grandes transformaes econmicas, sociais e polticas do perodo tiveram suas conseqncias para a cultura, e portanto precisam 
ser descritas aqui, ainda que breve e esquematicamente.
Uma das transformaes mais evidentes foi o crescimento populacional. Em 1500, havia cerca de 80 milhes de pessoas na Europa, nmero que, em 1800, foi para alm 
do dobro, 190 milhes aproximadamente. O crescimento da populao levou  urbanizao, pois havia menos espao, e alguns camponeses foram obrigados a emigrar para 
as cidades, em busca de trabalho. Em 1500, existiam apenas quatro cidades na Europa com mais de 100 mil habitantes (Istambul, Npoles, Paris e Veneza), mas em 1800 
havia 23. Uma delas, Londres, tinha mais de 1 milho de habitantes.1
Menos visvel imediatamente a olho nu, mas at mais importante do que a ascenso das cidades, foi uma sequncia de transformaes econmicas, que pode ser resumida 
como "revoluo comercial" ou "ascenso do capitalismo comercial". Houve uma grande expanso do comrcio dentro da Europa, e do comrcio entre a Europa e o resto 
do mundo. A diviso internacional do trabalho vinha se aprofundando, pg. 266 concentrando-se a Europa nas manufaturas (cutelaria, papel, vidro e principalmente 
txteis), que eram exportadas para a Europa oriental, sia, frica e Amrica, enquanto os alimentos e matrias-primas, como ferro, couro e algodo, eram importados 
em troca. Certas cidades e suas regies especializaram-se em produtos especficos: Leiden em tecidos de l, Lyon em seda, Bolonha em produo de papel, e assim por 
diante, e essas indstrias gradualmente passaram da produo destinada ao mercado local para a produo dirigida a um mercado nacional ou mesmo internacional.
Com essa revoluo comercial, veio uma revoluo nas comunicaes. Construram-se mais navios, escavaram-se mais canais, melhoram-se as estradas, os servios postais 
se tornaram mais frequentes, e houve um maior uso do dinheiro e crdito. A agricultura tambm se transformou, pelo menos nos arredores das grandes cidades; passou-se 
da cultura de subsistncia para uma cultura destinada ao crescente mercado urbano.
No se deve exagerar a escala dessas transformaes econmicas. Em 1800, menos de 3% da populao europia viviam em cidades com 100 mil ou mais habitantes. A forma 
dominante da empresa industrial era a pequena oficina, no a fbrica, e a produo estava apenas comeando a se mecanizar no final do sculo XVIII. Mas as transformaes 
foram suficientemente grandes para trazer srias conseqncias sociais.2
 medida que a populao cresceu, tambm subiram os preos, particularmente os preos dos alimentos. Eles tendiam a aumentar mais rpido do que os salrios, pois 
um aumento nos salrios tinha de ser negociado, e isso significava uma polarizao econmica; alguns ricos estavam ficando mais ricos, enquanto alguns pobres estavam 
ficando ainda mais pobres. Lucrou quem empregava trabalho assalariado: os comerciantes, os proprietrios rurais que dirigiam pessoalmente suas fazendas, e os camponeses 
e artesos mais prsperos. Por outro lado, os trabalhadores rurais e os oficiais, que recebiam salrios, estavam pior do que antes, e os pequenos proprietrios, 
que complementavam suas rendas com o trabalho assalariado, muitas vezes perderam sua independncia.
A cultura popular, como vimos, estava intimamente relacionada com seu ambiente, adaptada a diferentes grupos profissionais e modos regionais de vida. Necessariamente 
mudaria quando mudasse seu ambiente. A maneira como ela mudou  um tema que os historiadores esto apenas comeando a investigar, e  de se esperar que essa histria, 
quando for finalmente contada, seja complexa, visto que as diferentes pg. 267 partes da Europa foram atingidas em diferentes graus pelas transformaes econmicas. 
Aqui, como em outras partes do livro, vou oferecer um modelo simples de um processo complexo, sustentando que a revoluo comercial levou a uma idade de ouro na 
cultura popular tradicional (pelo menos na cultura material), antes que as revolues comercial e industrial, juntas, a destrussem.
Em vrias partes da Europa ocidental, a impresso dos contemporneos (respaldada pela prova mais slida dos inventrios) era a de que o campesinato estava comeando 
a ter mais objetos materiais, e tambm melhores. Na Inglaterra, a mudana parece ter chegado relativamente cedo, no reinado de Elizabeth. No passado, um campons 
e sua famlia dormiam no cho, e "uma tigela de madeira e uma panela ou duas compunham todos os seus bens"; mas no final do sculo XVI, um agricultor podia ter "uma 
bela guarnio de estanho em seu guarda-loua ... trs ou quatro colches de pena, muitas colchas e tapetes trabalhados, um saleiro de prata, uma grande taa para 
vinho (quando no um jogo inteiro) e uma dzia de colheres para completar o conjunto". E o mais espetacular  que grande parte da Inglaterra rural foi reconstruda 
no final do sculo XVI e incio do sculo XVII. Tambm na Alscia os sculos XVI e XVII foram a grande era da arte do arteso rural, da construo e mobiliamento 
de casas com estrutura de madeira e vos preenchidos com argamassa.3
        Em outras partes da Europa ocidental, parece ter sido o sculo XVIII a marcar a transformao decisiva. Em Friesland, os camponeses adquiriam schoorsteen 
kleden (panos decorativos para os consoles de lareira), cortinas, espelhos, relgios e colheres de prata. Em Artois, as tigelas e vasilhas de madeira e argila crua 
foram substitudas por estanho e cermica mais fina. O inventrio de bens de Edme Retf, agricultor da Burgndia (e pai de Rtif de Ia Bretonne), mostra que em 1764 
ele tinha, entre outras coisas, doze cadeiras, duas camas largas, pratarias e um genuflexrio. Na Noruega e Sucia,  fcil encontrar bas, guarda-louas, tigelas 
e pratos pintados e entalhados do sculo XVIII, mas  difcil encontrar qualquer coisa anterior que provenha de uma casa camponesa. As rosceas pintadas norueguesas 
e as cortinas pintadas suecas remontam ao sculo XVIII, quando os braseiros abertos (com sada para a fumaa atravs de um buraco no teto) foram substitudos por 
foges. Os relgios de pndulo fizeram sua apario em lares rurais tanto na Sucia do sculo XVIII como no Pas de Gales do sculo XVIII.4
O aumento quantitativo (e talvez qualitativo) da moblia e utenslios nas casas camponesas deste perodo ocorreu por duas razes diferentes. Pg. 268. Em algumas 
regies, os camponeses mais ricos estavam prosperando, e essa prosperidade se traduzia em novos padres de conforto. Na Inglaterra, foi a classe dos pequenos proprietrios 
que lucrou com a comercializao da agricultura, construindo novas casas e adquirindo "uma bela guarnio de estanho". Na Alscia, os vinicultores estavam encontrando 
novos mercados na poca em que construam e mobiliavam novas casas. Na Frana, o fim das guerras de Lus XIV e, na Sucia, o fim das guerras de Carlos XII provavelmente 
significaram um aumento de prosperidade. Na Noruega, o estrondoso aumento das exportaes de madeira (para a Gr-Bretanha, entre outros pases) levou a uma melhoria 
no padro de vida rural. De modo geral, podemos dizer que a aristocracia camponesa, homens como Edme Rtf, agora tinham condies de comprar objetos que, antes, 
eles mesmos faziam.5
Uma segunda razo para a transformao na cultura material pode se encontrar na transformao das formas de produo.  medida que crescia o mercado exportador, 
a especializao regional em certos ofcios artesanais tornou-se ainda mais acentuada do que antes. A cermica, por exemplo, passou a ser importante em Staffordshire 
e Nevers. A indstria de azulejos de Leeuwarden, Haarlem, Amsterdam, Dordrecht e outros centros dos Pases Baixos atingiu seu auge entre 1600 e 1800; os azulejos, 
pintados com barcos, moinhos de vento, tulipas, soldados e muitos outros motivos, eram populares no s a nvel nacional, mas tambm na Inglaterra e na Alemanha. 
No sculo XVIII, Dalarna, na Sucia, converteu-se num centro de produo de mveis pintados, vendidos ao mercado em Mora. Em 1782, foram registrados 484 artesos 
profissionais em atividade no distrito de Gudbrandsdal, na Noruega, famoso, como Dalarna, por seus mveis pintados. A arte popular estava mais acessvel do que nunca.6
A expanso do mercado significava uma maior demanda, e para atend-la o processo de produo foi padronizado. No se poderia pensar em produzir objetos conforme 
as exigncias especficas do cliente individual, tal como tradicionalmente ocorria. Ao longo do sculo XVIII, os desenhos dos azulejos holandeses foram se simplificando 
at umas poucas pinceladas rpidas, e passou-se a usar mtodos semimecnicos, como o emprego de matrizes. Era questo de apenas uma ou duas geraes antes que o 
objeto artesanal, feito a mo, comeasse a ceder ao objeto padronizado, feito a mquina e produzido em massa. A expanso do mercado tambm destruiu a cultura material 
local. Na regio rural perto de Edimburgo, no final do sculo XVIII, os agricultores mais prsperos, ou gudemen, estavam comprando cermica de pg. 269 Wedgwood 
e roupas feitas em Manchester, para no citar as ps para revolver o fogo ou as cortinas de algodo estampado. Eram os primeiros sinais do poder destrutivo de revoluo 
comercial  mas o processo que destruiria a cultura popular tradicional possibilitou antes algumas de suas belas realizaes.7
          Enquanto isso, a Europa oriental mantinha-se  parte de muitas dessas tendncias. Em muitas regies, os camponeses tinham sido reduzidos  servido durante 
o sculo XVI, de modo que os lucros derivados do aumento dos preos dos alimentos no chegaram at eles. Nos Blcs, continuou a predominar a casa com um nico aposento, 
sem chamin, tornando impensvel o uso de decoraes pintadas, e o povo possua um nmero relativamente pequeno de objetos materiais. Ainda em 1830, conforme consta, 
um lar rural srvio contava em mdia com apenas cinquenta peas de mveis e utenslios, cerca de dez por pessoa.A expanso ou alargamento do mercado afetou, alm 
dos objetos artesanais, as apresentaes artsticas. Se o declnio das feiras foi, como deve ter sido, um golpe para os artistas ambulantes que a se apresentavam, 
o crescimento de grandes cidades ofereceu-lhes, em compensao, outras oportunidades.  difcil dizer at que ponto o entretenimento popular urbano se transformou 
entre 1500 e 1800. Recentemente sustentou-se que a Inglaterra do sculo XVIII passou por uma "comercializao do lazer", no sentido de que homens de negcio comearam 
a encarar as atividades de lazer como um bom investimento e que as facilidades realmente aumentaram. No  fcil ter certeza se havia mais, digamos, teatros de fantoches 
em Londres no sculo XVIII do que no sculo anterior, visto que esse tipo de diverso organizada informalmente deixa poucos traos documentais; mas por certo existiam 
novos entretenimentos, e organizados mais formalmente, e uma utilizao crescente de anncios para informar ao pblico o que estava sendo apresentado. Thomas Topham, 
o homem hercleo, fez "exibies" dos seus poderes em Londres e outros locais nos anos 1730 e 1740, levantando pesos, dobrando atiadores de ferro e sofreando cavalos. 
Jack Broughton inaugurou seu ringue na Oxford Street em 1743,cobrando ingressos e anunciando a data das lutas. As corridas de cavalos j eram anunciadas nos jornais 
nos anos 1720, e por volta de 1800, segundo J. H. Plumb, "a corrida era uma indstria que envolvia milhares de trabalhadores e um investimento que incorria em centenas 
de milhares de libras". O caso mais notvel de comercializao da cultura popular  o circo, que remonta  segunda metade do sculo XVIII; Philip Astiey fundou seu 
circo em Westminster Bridge em 1770. Os elementos do circo, artistas como palhaos e acrobatas, como vimos, pg.270 so tradicionais; o que havia de novo era a escala 
da organizao, o uso de um recinto fechado, ao invs de uma rua ou praa, como cenrio da apresentao, e o papel do empresrio. Aqui, como em outros mbitos da 
economia do sculo XVIII, as empresas em grande escala vinham expulsando as pequenas.9
Poder-se-ia esperar que fossem os ingleses os pioneiros dessa primeira revoluo industrial no setor do entretenimento, mas existem alguns paralelos no continente 
europeu. Na poca em que o lutador profissional vinha fazendo sua apario na Inglaterra, encontramos o toureiro profissional a surgir na Espanha. Se Daniel Mendoza 
era um heri popular na Inglaterra, o mesmo se poderia dizer de Pedro Romero, de Pepe Hillo ou do grande rival de Romero, Costiliares. Por volta de 1780, dizia-se 
que Madri inteira estava dividida entre as duas faces de costiliaristas e romerstas. Um novo tipo de heri-popular apareceu no sculo XVIII: o dolo esportivo. 
Pode-se suspeitar, embora falte documentao para estabelecer este ponto, que as festas populares na Itlia se comercializaram cada vez mais entre 1500 e 1800.Quando 
Montaigne visitou Loreto em 1581, encontrou a aldeiazinha (e grande centro de peregrinao) cheia de lojas, "ricamente provida"com velas, rosrios e imagens santas, 
para todo o mundo, como Lourdes ou Assis hoje em dia. Montaigne ficou desapontado com o Carnaval romano, mas estrangeiros como ele continuaram a assisti-lo; na verdade, 
pode-se afirmar que, nos sculos XVII e XVIII, o Carnaval em Roma ou Veneza se destinava tanto aos habitantes locais como aos visitantes, peregrinos ou turistas. 
As festas certamente traziam uma contribuio muito necessria  economia dessas duas cidades, e um contemporneo calculou que 30 mil pessoas visitaram Veneza para 
o Carnaval de 1687.10 Em suma, estava ocorrendo uma passagem gradual das formas mais espontneas e participativas d entretenimento para espetculos mais formalmente 
organizados e comercializados para espectadores, passagem esta que, evidentemente, prosseguiria por muito tempo depois de 1800.
           Nas cidades maiores, o processo de transformao social parece ter enriquecido a cultura popular. No campo, principalmente em regies distantes, o mesmo 
processo levou a um empobrecimento cultural. No final do sculo XVIII, a Comisso da Sociedade das Terras Altas investigou a poesia popular a fim de decidir sobre 
a autenticidade de Ossian (acima, p. 44). Descobriram que a poesia popular tradicional estava desaparecendo, em consequncia da "transformao dos costumes nas Terras 
Altas, onde os hbitos de trabalho agora suplantaram o entretenimento de ouvir a narrativa lendria ou a balada he-
pg.271rica". Pela frase, no fica muito claro se realmente deploravam ou no a transformao, mas um dos seus informantes foi muito mais direto. Hugh M`Donald, 
um arrendatrio que sublocava terras da ilha de Uist, resumiu o processo de comercializao e "a transformao dos costumes" da seguinte maneira:
            As virtudes mais nobres foram arrumadas ou exiladas desde que o amor ao dinheiro insinuou-se entre ns, e desde que a falcia e a hipocrisia trouxeram 
a poltica mercenria e a avareza srdida e servil para nossas terras.11

                       OS USOS DA ALFABETIZAO
     O exemplo mais bvio da comercializao da cultura popular ainda no foi mencionado: o livro impresso. Em 1500, mais de 250 centros contavam com grficas montadas 
e havia cerca de 40 mil edies impressas, totalizando aproximadamente 20 milhes de exempla-res numa poca em que a populao da Europa compunha-se de pouco mais 
de 80 milhes. A produo de livros continuou a crescer entre 1500 e 1800. Na Frana, no sculo XVI, por exemplo, o mximo chegou a quase mil ttulos (ou l milho 
de exemplares) por ano; no sculo XVII, o mximo chegou a pouco mais de mil ttulos; no sculo XVIII,houve um aumento constante, mas intenso, a um mximo de 4 mil 
ttulos por ano.12
           Que diferena fez esse fluxo de livros impressos para os artesos e camponeses? Eles podiam l-los? No  fcil calcular as taxas de alfabetizao antes 
da compilao oficial de estatsticas (relativamente) confiveis sobre a questo, na metade do sculo XIX  com a exceo da Sucia e da Finlndia, onde a Igreja 
fizera levantamentos cuidadosos e mantinha registros completos.* Os historiadores geralmente tm tido trabalho em calcular a proporo entre assinaturas e marcas 
das testemunhas de testamentos, registros ou contratos de casamento, ou outros documentos oficiais, como taxaes de impostos ou o juramento de lealdade ao parlamento 
ingls, em 1642. A capacidade de assinar o nome no deve ser confundida com a capacidade de ler fluentemente,mas existem algumas provas de que as duas aptides esto 
inter-relacionadas e que "o nvel de assinaturas est abaixo mas muito prximo da capacidade de leitura".13 Pg.272
        Empregando esse tipo de indicao, os historiadores concluram que uma considervel minoria do povo era efetivamente capaz de ler nos incios da Europa moderna; 
que em 1800 seu nmero era maior do que em 1500; que os artesos, de modo geral, eram muito mais alfabetizados do que os camponeses, os homens mais do que as mulheres,os 
protestantes mais do que os catlicos, e os europeus ocidentais mais do que os orientais. Para todas essas asseres, as provas so precisas,mas fragmentrias. No 
que se refere  estrutura da alfabetizao, descobriu-se que, em Narbonne e campos adjacentes, cerca de 65% dos artesos eram letrados, em comparao aos 20% de 
camponeses, no final do sculo XVI, e que no final do sculo XVII, em toda a Frana, cerca de 14% das noivas assinavam o registro de casamento, menos da metade dos 
noivos (cerca de 29%). Os escandinavos, holandeses e britnicos  todos protestantes da Europa ocidental  tinham os ndices mais altos de alfabetizao dos incios 
da Europa moderna. Em 1850,a Rssia contava com 10% de adultos letrados, a Itlia e a Espanha com 25%, em comparao com 70% na Inglaterra, 80% na Esccia e 90% 
na Sucia.14
     Quanto s transformaes ao longo do tempo, houve aumentos notveis na alfabetizao durante a primeira metade do nosso perodo, 1500-1650, por exemplo, em 
partes da Itlia e Inglaterra. Em Veneza,por volta de 1450, 61% de uma amostra de testemunhas sabiam assinar seus nomes, mas a proporo aumentou para 98% em torno 
de 1650. Em Durham, por volta de 1570, 20% das testemunhas leigas perante o tribunal do consistrio eram alfabetizadas (mas menos de 20% dos artesos, e praticamente 
nenhum campons); por volta de 1630, a proporo chegara a 47%. Em outras partes da Europa, foi a segunda metade do perodo, 1650-1800, que mostrou intenso aumento 
na alfabetizao. No conjunto da Frana, o ndice mdio de alfabetizao entre os homens subiu de 29% em 1690 para 47% em 1790; na Inglaterra,subiu de 30% em 1642 
para 60% na segunda metade do sculo XVIII.Estudos regionais mais limitados s vezes tm informaes mais notveis. Em Amsterdam, o ndice de alfabetizao entre 
os homens era de 57% em 1630, mas em 1780 aumentara para 85%. Em Marselha, era de 50% entre 1700 e 1730, mas foi a 69% em 1790. Na Normandia, ele subiu de 10% para 
80% ao longo do sculo XVIII. Em partes da Sucia, onde as evidncias so mais completas e diretas, o aumento  o mais notvel de todos. Na parquia de Moklinta, 
por exemplo, 21%
dos homens e mulheres sabiam ler em 1614, e 89% em 1685-94; na parquia de Skelleftea, em 1724, 43% dos homens e mulheres nascidos antes de 1645 sabiam ler, e 98% 
dos nascidos a partir de 1705. Na diocese de Hrnsand,pg.273. a alfabetizao era de 50% em 1645, mas de 98%dos nascidos a partir de 1705. Na diocese de Hrnsand, 
a alfebetizao era 50% em 1645, mais de 98% em 1714.                                                     Esse aumento na alfabetizao foi resultado de crescentes 
facilidades educacionais, e o crescimento dessas facilidades educacionais fazia parte do movimento pela reforma da cultura popular descrito no captulo anterior.
 
(*) Durante o husfrhr, a capacidade de leitura das pessoas era testada, sendo classificada como "corretamente", "em algum grau" ou "absolutamente nada".

Os reformadores de mentalidade secular eram ambivalentes quanto  alfabetizao popular. Desconfiavam muito da cultura oral tradicional, como vimos, mas tambm temiam 
que a educao pudesse tornar os pobres descontentes com sua posio na vida e estimular os camponeses a deixar a terra. Alguns, como Voltaire, achavam que a maioria 
das crianas simplesmente no devia aprender a ler e escrever; outros, como Jovellanos, achavam que os camponeses deviam aprender os rudimentos de leitura, escrita, 
aritmtica, mas s.16
        Os devotos tinham maior f na alfabetizao, que viam como um passo na via da salvao. Na Esccia, por exemplo, John Knox queria que cada parquia tivesse 
sua escola (embora esse desejo tenha demorado muito em se concretizar, mesmo na Baixa Esccia). Na Inglaterra (afirmou Lawrence Stone), houve uma "revoluo educacional" 
entre 1560 e 1640, incentivada pela fundao de escolas por parte dos religiosos, e houve um aumento nas taxas de alfabetizao no final do sculo XVIII, em parte 
devido a um crescimento das escolas dominicais. Foi graas aos puritanos que se estabeleceram escolas em cidades-mercados no Pas de Gales, sob a "lei para a propagao 
do Evangelho", e graas aos no-conformistas as "escolas circulantes*' levaram a alfabetizao ao campo durante o sculo XVIII. Na Sucia, a Igreja montou a campanha 
que levou ao salto na alfabetizao dos adultos por volta de 1700. Na Frana, os religiosos (a Compagnie do Saint Sacrement, Jean-Baptste de Ia Salle e os Frres 
Chrtens) ajudaram no crescimento das oportunidades educacionais perceptveis a partir do final do sculo XVII.17
       No entanto, no devemos supor que as consequncias da alfabetizao foram as que os religiosos supunham que iriam ou deveriam ser. O que os camponeses e artesos 
letrados liam nos incios do perodo moderno? Tinham algum acesso a livros? Existem pelo menos trs problemas por trs da palavra aparentemente simples "acesso" 
e precisam ser abordados um a um. 
      O primeiro problema  o acesso fsico: os livros conseguiam chegar aos camponeses e artesos? No era um grande problema para os citadinos, que podiam encontrar 
livros  venda no St Paul's Churchyard, em Londres, em Pont-Neuf, em Paris, na Puerta del Sol, em Madri, pg.274e muitos outros lugares, muitas vezes pendurados 
num cordo na rua ( por isso que os espanhis ainda chamam os exemplares de literatura popular de literatura de cordel). Para a maioria da populao, que vivia 
no campo, o problema da distribuio era maior, mas no insolvel. Os livros e outros materiais impressos, como folhetos, podiam ser comprados nas feiras ou com 
mascates e cantores ambulantes de baladas. Um ingls em 1611 definiu o mascate como **um vendedor ambulante que numa sacola ou cesta comprida (que na maior parte 
do tempo ele carrega aberta e na sua frente, pendurada no pescoo) tem almanaques, livros de notcias ou outras coisas insignificantes para vender".18 Era por causa 
dessa sacola porttil ao pescoo que os fran-
ceses chamavam os mascates de colporteurs. Esses mascates se equipavam com os artigos de livreiros das cidades, e a seguir percorriam as aldeias. Pouco se sabe deles 
antes do incio do sculo XIX, mas naquela altura as aldeias francesas eram servidas por colporteurs que, em sua maioria, vinham dos Altos Comminges, nos Pireneus, 
trabalhavam em pequenos grupos e especializavam-se na distribuio de vero ou de in-verno.19 Por razes bvias, os livros (chamados de chap-books) que os mascates 
(chapmen) traziam consigo eram pequenos, antes folhetos do que verdadeiros livros no sentido moderno, frequentemente com apenas 32, 24 ou mesmo oito pginas. Tais 
folhetos j eram produzidos na Itlia e Espanha nos incios do sculo XVI, e no sculo XVIII podem ser encontrados em muitssimas partes da Europa.20
Um segundo problema  o acesso econmico: os artesos e componeses podiam comprar material impresso? Numa poca em que o preo do papel correspondia a uma parcela 
maior do custo de produo do que hoje em dia, livros pequenos eram baratos. Na Frana, .nos sculos XVII e XVIII, eram impressos em papel de baixa qualidade, encadernados 
com papel azul do tipo usado para embrulhar pes doces (da o nome Bibliothque Bleue) e vendidos por um ou dois sous cada,numa poca em que o salrio mdio de um 
trabalhador urbano variava de quinze a vinte sous por semana, e o preo normal do po era de dois sous a libra. Os almanaques, por volta de 1700, custavam trs sous. 
Na Sucia, os folhetos paculo XVIII custavam um skilling sueco, a menor moeda em circulao. Na Inglaterra, no sculo XVII, os almanaques custavam doispence e os 
folhetos um pni; no sculo XVIII, quando o folheto padronizado com 24 pginas passou a
aparecer regularmente, tambm custava um pni. Parece, assim, que o preo de folhetos e livretos no ultrapassava os recursos de alguns artesos e camponeses, e 
os issaram a ser conhecidos como skillingtryck, "literatura de xelim", porque no final do snventrios mostram que em Lyon e Grenoble,pg.275 no sculo XVIII, uma 
minoria de artesos possua uns poucos livros mais valiosos.21
Um problema final  o acesso lingstico: os folhetos e livretos eram escritos de maneira suficientemente simples para homens e mulheres com pouco mais que os rudimentos 
das letras? Quem quer que se d ao trabalho de ler alguns desses livrinhos hoje em dia ver que sua linguagem geralmente  simples, o vocabulrio relativamente pequeno, 
as construes no elaboradas.  improvvel que tenham apresentado grandes problemas de compreenso, mesmo para pessoas que liam devagar e com dificuldade. S  
provvel que tenham ocorrido problemas lingsticos em regies distantes dos centros de produo dos livretos (geralmente reas de baixa taxa de alfabetizao), 
como a Europa oriental ou o sul da Itlia. A Bibliothque Bleue pode ter significado pouco na Baixa Bretanha ou no Languedoc, onde o francs ainda era uma lngua 
estrangeira.
Em suma, o material impresso era acessvel a um grande nmero de artesos e camponeses naquele perodo, mesmo que no possamos dizer se esse "grande nmero" era 
maior ou menor que 50%, e muito menos calcular  devido  sua fragilidade  quantos folhetos e livretos existiam. O ndice de jornais ingleses do incio do sculo 
XVIII (que no s eram frgeis, mas tambm numerados) que chegou at ns tem sido estimado em apenas 0,013 %.22 O fato de terem restado milhares de folhetos e livretos 
do perodo 1500-1800 permite-nos supor a importncia desse material e passar para a questo ainda mais delicada da sua significao. Em outras palavras, que tipo 
de impacto ele teve na cultura popular tradicional? Quais foram as conseqncias da crescente alfabetizao?
Para um leitor moderno, a semelhana entre os broadsides ou livretos e a "cultura de massa" do mundo contemporneo provavelmente ser notvel. Ele perceber a crescente 
padronizao do formato, ser sensvel aos expedientes usados para atrair compradores, tais como ttulos sensacionais ou a afirmao (frequentemente falsa) de que 
a narrativa  "completa", "fiel", "verdadeira" ou "nova". O fato de que a descrio de execues ou visitas reais s vezes j estava impressa antes de terem acontecido 
lembra o nosso moderno "pseudo-acontecimento". Sabemos da presena do empresrio (a famlia Bindoni na Veneza do sculo XVI, a famlia Oudot na Troyes do sculo 
XVII, a famlia Dicey na Londres do sculo XVIII), o homem de negcios que estava convertendo a literatura popular em mercadoria.23 Mas no  fcil saber a diferena 
que representavam essas transformaes para os apresentadores e seus pblicos. Pg. 276
Para o cantor ou contador de estrias profissional, a folha ou o folheto impresso podia significar uma ampliao bem-vinda do seu repertrio ou uma renda suplementar 
com a venda dos textos. J em 1483, "Bernardino, o Charlato" estava comprando de um impressor florentino, de uma vez s, 25 exemplares de um poema chamado La Sala 
de Malagigi, provavelmente para vender depois de sua apresentao.24 A longo prazo, porm, o livro era um concorrente perigoso e um aliado traioeiro. Um concorrente 
perigoso porque o comprador do texto impresso poderia dispensar totalmente a apresentao; ele perdia o incentivo para ficar de p durante uma hora numa praa, ouvindo 
um cantor ambulante. A difuso da alfabetizao e o declnio do pico foram simultneos na Europa ocidental, enquanto o analfabetismo e o pico sobreviveram juntos 
na Siclia, Bsnia, Rssia. O livro era um aliado traioeiro, porque a fixao dos textos na letra impressa afetava a natureza da apresentao, estimulando a repetio, 
ao invs da recriao de uma cano ou estria. Sugeriu-se que a alfabetizao embota a capacidade de improvisao, da mesma forma como retira parte do incentivo 
a ela.  difcil comprovar essa hiptese mesmo em condies ideais, e impossvel demonstr-la para o nosso perodo: mas, se for verdadeira, seria uma outra explicao 
para a evidente importncia dos cantores cegos de baladas, sugerindo que sua imunidade ao texto impresso preservou seus poderes criativos.  provvel, portanto, 
que o texto impresso tenha incentivado uma diviso do trabalho entre o apresentador, que agora cantava tudo o que os editores lhe forneciam, e o autor de novas canes 
e estrias. O autor, que podia nunca ver seu pblico e no tinha de apresentar o que compusera, emancipou-se da tradio oral e das presses da audincia, e poderia 
inventar ou plagiar o que quisesse. Mas essa nova liberdade era um presente perigoso para quem no fosse extremamente talentoso; a maioria de ns precisa do apoio 
de uma tradio. No surpreende que as novas baladas impressas raramente se equiparassem s suas predecessoras tradicionais.25
E o crescente pblico leitor? O livro impresso revolucionou suas atitudes e valores? Graas  difuso da alfabetizao no Terceiro Mundo, em anos recentes, essa 
pergunta se tornou extremamente atual, sendo que os socilogos, com muita freqncia, do uma resposta afirmativa. Na Nigria, nos anos 1950, houve uma ascenso 
de panfletos populares, escritos em ingls, uma "Bibliothque Bleue" negra (tendo como sua Troyes a cidade de Onitsha), muitas vezes interessada em converter seus 
leitores a novos valores, como o trabalho esforado, a frugalidade, a magnanimidade, a sofisticao e o progresso. Num estudo sobre o Oriente Mdio (baseado em entrevistas), 
um socilogo pg. 277 americano sustentou que o texto impresso (juntamente com outros meios de comunicao de massa e transformaes sociais subjacentes, em particular 
a urbanizao) produz um novo tipo de personalidade, a "personalidade mvel", como ele a chama. O novo tipo de homem ou mulher caracteriza-se por uma alta capacidade 
de empatia (resultante da diversidade de suas experincias vicrias) e disposio em aceitar transformaes, mudar-se de um lugar para outro ou expressar suas opinies 
pessoais sobre a sociedade; numa palavra, a modernidade.26
Tais mudanas espetaculares no so visveis nos incios da Europa moderna, onde a urbanizao no vinha ocorrendo com a mesma rapidez com que se d atualmente na 
Nigria ou no Oriente Mdio, e o mundo aberto pela alfabetizao no inclua nenhuma sociedade industrial que se pudesse tomar como modelo. No podemos entrevistar 
os mortos ou medir sua capacidade emptica, mas as atitudes em relao aos turcos, judeus ou bruxas, expressas naquele perodo, sugerem que ela no deve ter sido 
muito grande (acima, p. 191). Numa engenhosa tentativa de verificar a hiptese da modernizao, um historiador comparou as doaes testamentrias de alfabetizados 
e analfabetos da Nova Inglaterra do sculo XVIII. Ele descobriu que os dois grupos doavam a mesma proporo de seus bens a obras ou associaes, de caridade, e que 
ambos os grupos faziam suas doaes antes a membros da sua famlia ou aldeia do que a forasteiros, e antes aos pobres e  Igreja do que s escolas. Em suma, as atitudes 
dos alfabetizados eram tradicionais.27 O contedo do material impresso popular no sugere nenhuma violenta ruptura da continuidade. Muito do que era impresso j 
fazia parte do repertrio de apresentadores dentro da tradio oral, e traz as marcas dessa origem: baladas e dilogos, sermes simulados e peas de mistrio. Talvez 
seja necessrio se invocar aqui a fora d inrcia, mas a continuidade pode ser devida aos usos do material impresso, que no se destinava tanto a uma leitura silenciosa 
e individual, mas a uma leitura em voz alta para vizinhos ou parentes menos letrados. Um historiador que se pe a ler uma srie de livretos publicados entre 1500 
e 1800 provavelmente ficar impressionado com a presena esmagadora da tradio: os mesmos gneros, os mesmos textos. Os funcionrios pblicos que prendiam os mascates 
nas estradas e esvaziavam suas sacolas descobriram a mesma coisa. J bem mais tarde, em 1812, descobriu-se que um mascate alemo, entre seus 36 livros, trazia um 
sobre interpretao de sonhos, a vida de Genoveva de Brabante, o romance dos quatro filhos de Aymon e os chistes de Till Eulenspiegel. Um mascate francs preso em 
1825 tinha 25 livros, incluindo um livro de sonhos, Os quatro filhos de Aymon, Pierre da Provena e o Gato de botas. 28 Pg. 278  Os almanaques, um dos tipos de 
livros mais populares da poca, pouco mudaram ao longo dos anos e mesmo dos sculos, e ofereciam os mesmos ensinamentos astrolgicos, mdicos, agrcolas e religiosos.29 
Comea-se a pensar se a imprensa, ao invs de destruir, no preservou e at difundiu a cultura popular tradicional. Quantas baladas os compiladores poderiam registrar 
a partir da "tradio oral" no sculo XIX, se no existissem os folhetos impressos?30
Um olhar mais detido no desfaz essa primeira impresso, mas torna-a mais definida. Os velhos temas no desapareceram entre 1500 e 1800, mas surgiram novos. As transformaes 
culturais, tanto neste como em outros casos, eram mais "aditivas" do que "substitutivas". Novos tipos de heris populares vieram se juntar ao tradicional santo, 
cavaleiro, governante ou fora-de-lei. O hussardo era uma nova forma de cavaleiro; o contrabandista, uma nova espcie de fora-da-lei; o empresrio, um tipo inteiramente 
novo de heri. No sculo XVIII, eram correntes os livros de boas maneiras em forma de folhetos, e (como na literatura popular nigeriana) diziam ao leitor como escrever 
uma boa carta ou abordar o sexo oposto, com uma lista de elogios apropriados, como "prezo mais o seu casto amor do que todas as riquezas da ndia".31 Mais importante, 
 possvel ver nos folhetos e em outros tipos de fontes a prova de duas transformaes graduais, mas relevantes, nas atitudes populares, pelo menos na Europa ocidental. 
Elas podem ser resumidas em duas abstraes toscas, mas teis: secularizao e politizao.
A "secularizao"  to difcil de ser definida quanto a "religio". Talvez tenhamos de distinguir duas acepes do termo, uma forte e uma fraca. No sentido forte, 
a secularizao pode ser definida como a rejeio da religio. O historiador que discorre sobre este processo evidentemente deve ser capaz de indicar uma era de 
f, a partir da qual se deu o declnio. Alguns historiadores franceses vm dando grande ateno ao problema da dchristianisation, como o chamam. Se considerarmos, 
por exemplo, que no sculo XVII havia bretes que se dizia no saberem quantos deuses existiam,  evidente que o ponto alto da ortodoxia catlica na Frana deve 
ter sido posterior, ao que comumente se pensa, talvez nos anos 1720-1750. Mas nos anos 1790, quando o governo revolucionrio diminuiu as presses para a adoo do 
catolicismo, uma parcela considervel da populao deixou de cumprir com seus deveres de Pscoa, principalmente em Paris e outras cidades grandes. No sabemos at 
que ponto essa retrao foi espontnea, nem o que ela significou para os artesos e camponeses envolvidos. Talvez fosse uma rejeio da religio organizada, um pg. 
279  desmo popular como o dos artesos livre-pensadores de Londres e Viena nos anos 1790. Talvez fosse uma rejeio do catolicismo oficial por famlias de ex-protestantes 
ou por pessoas que se ressentiam com o ataque do clero s crenas e costumes tradicionais.32
A secularizao em sentido fraco pode ser definida como a expresso de medos e esperanas em termos cada vez mais terrenos, o declnio do sobrenatural ou o que Max 
Weber chamou de "o desencantamento do mundo" (de Entzauberung der Welt). Os folhetos oferecem algumas provas positivas sobre tal transformao. Na Inglaterra, algumas 
estrias soam como um sucedneo secular de obras devotas. Robinson Crusoe e Moll Flanders de Defoe, ambos correntes em forma barata e resumida durante o sculo XVIII, 
podem ser interpretados como um progresso do peregrino secularizado, sendo que a obteno de riqueza e status aparece como sinal de salvao, ou mesmo no lugar da 
prpria salvao. Um outro folheto, Hocus Pocus, com muitas edies, expunha os truques de malabaristas e prestidigitadores, mostrando que no empregavam magia, 
mas apenas a destreza manual. Esses exemplos sugerem que as transformaes na cultura dos instrudos  principalmente o complexo de transformaes resumido na expresso 
"a Revoluo Cientfica"  estavam tendo um certo impacto sobre a cultura popular.33 Um estudo recente sobre os almanaques franceses do sculo XVIII sugere que eles 
se referiam menos ao sobrenatural do que os almanaques do sculo XVII. A estria de Bonhomme Misre, em sua forma impressa do sculo XVIII, l-se como se as referncias 
ao sobrenatural tivessem sido simplesmente cortadas. Misre tem seu desejo atendido depois de uma visita de "deux particuliers nomms Pierre et Paul , que nunca 
so identificados como os santos que originalmente eram.34
As esperanas e medos que tradicionalmente tinham se expressado em termos religiosos agora precisavam de outro modo de expresso, que ser encontrado cada vez mais 
no poltico.

A POLTICA E O POVO
Uma outra mudana importante nas atitudes populares entre 1500 e 1800 pode ser definida como a "politizao" da cultura popular ou a difuso da conscincia poltica. 
Como podemos dizer se o povo simples era politicamente consciente ou no? Aqui h dois problemas, um conceitual e outro emprico. O que  poltica? Para os incios 
do perodo moderno, talvez seja adequado defini-la como "assuntos do Estado, pg. 280  no questes locais, mas as preocupaes dos governantes, em outras palavras, 
a sucesso, a guerra, a tributao e problemas econmicos e religiosos, na medida em que se impunham  ateno dos governos. A conscincia poltica poderia ser definida 
como o conhecimento desses problemas e suas possveis solues, envolvendo uma "opinio pblica" e uma atitude crtica (ainda que no necessariamente hostil) em 
relao ao governo. O problema emprico  a notria incapacidade do historiador em submeter os mortos a uma pesquisa de opinio, e o risco de tentar fazer demonstraes 
a partir de evidncias negativas, quando sabemos to pouco a respeito dos artesos e camponeses da poca; no sabemos o que costumavam conversar nas tavernas, na 
praa do mercado ou em casa. Tudo o que se pode fazer  juntar as evidncias sobre os movimentos populares e a literatura popular, e ver se da se esboa um modelo. 
Esse modelo se parece extraordinariamente com um crescimento da conscincia poltica. Pelo menos na Europa ocidental, entre a Reforma e a Revoluo Francesa, os 
artesos e camponeses estavam mostrando um interesse crescente pelas aes dos governos e sentindo um envolvimento com a poltica maior do que antes.
Quando Lutero apelou aos prncipes e nobres da "nao alem", um debate teolgico se tornou poltico. Os governantes tinham de decidir a atitude que se adotaria 
em relao  Reforma. Lutero tambm apelou ao "Herr Omnes, como dizia, isto , ao "homem comum", e seus adversrios tiveram de fazer o mesmo. Nos anos 1520, publicaram-se 
muitos panfletos para convencer o povo simples de que Lutero estava certo, ou errado, e as gravuras satricas levavam as mensagens aos lares. O prprio Lutero tinha 
clara conscincia do valor propagandstico da gravura impressa. "Em todas as paredes (escreveu certa vez), em todos os tipos de papel e baralhos, os padres e monges 
devem ser retratados de tal forma que o povo sinta repugnncia ao ver ou ouvir falar do clero." A reao dos camponeses alemes ao debate foi, evidentemente, sua 
grande rebelio em 1525. Lutero nunca pretendeu a rebelio dos camponeses e condenou-os quando se rebelaram, mas a indignao deles contra os proprietrios rurais 
religiosos foi seguramente encorajada pela campanha propagandstica de Lutero, e parece que eles interpretaram a insistncia de Lutero sobre a "liberdade de um cristo" 
como uma referncia  liberdade no tanto espiritual, mas em relao  servido. Muitas de suas queixas eram tradicionais, mas a legitimao espiritual da revolta 
era nova, permitindo-lhes atacar senhores rurais e prncipes em nome de uma autoridade mais elevada. Tornou-se possvel criticar at o imperador. Numa cano popular 
de pg. 281 1546, a "Alemanha" diz ao imperador, na sua cara, que ele  "traioeiro e falso" por devastar a terra alem (em outras palavras, por atacar os protestantes), 
quando devia estar lutando contra os turcos.35
Na Alemanha, o debate sobre a Reforma extinguiu-se em meados do sculo XVI, mas suas consequncias para a cultura popular continuaram a se fazer sentir em outros 
lugares. Na Frana e nos Pases Baixos, nos anos 1560 e 1570, os grupos de nobres, rebelando-se em nome da liberdade e da verdadeira religio (desta vez calvinista) 
contra seus respectivos governantes, apelaram, como fizera Lutero, ao povo.
Nos Pases Baixos, a Liga da Nobreza, descartada desdenhosamente como "aqueles mendigos", adotou o nome e apresentou uma espcie de pea poltica, um banquete onde 
eles carregavam cuias de mendigos. Nas ruas da Anturpia e Bruxelas, "vivam os mendigos" (vive les Geus) virou um clamor popular. Logo comearam  circular canes 
de mendigos em folhetos, denunciando o rei Filipe e seu governador, o duque de Alba, como tiranos e o papa como Anticristo, comentando os acontecimentos correntes 
da guerra que se seguiu, inclusive a captura de Brielle, o cerco e os reforos de Leiden e o assassinato do lder rebelde. Guilherme, o Silencioso. Essas canes 
foram acompanhadas por panfletos, gravuras, medalhas e emblemas, como o quarto crescente com a inscriao liever Turcx dan Paus, "antes os turcos do que o papa".36
Tambm na Frana as canes e gravuras deram ao povo comum uma maior conscincia sobre as questes em jogo na guerra civil, um conflito trplice entre os huguenotes 
militantes, os catlicos militantes organizados na Liga Catlica e um grupo de centro apoiado por Catarina de Medici e seu filho Henrique III. Como os mendigos, 
os huguenotes fizeram canes e gravuras em apoio  sua causa, como a estampa de Le Renversement de Ia Grana Marmite, onde a panela virada  a Igreja de Roma, da 
qual caem cardeais, bispos, etc. A Liga Catlica revidou com estampas que mostravam os huguenotes como macacos e Henrique III como diabo ou hermafrodita.37
Como na Alemanha, esses apelos ao povo tinham resultados mais radicais do que pretendiam os lderes. No se pode descrever o que estava acontecendo simplesmente 
em termos do "impacto" das idias dos letrados sobre um corpo passivo de pessoas comuns; o povo estava assimilando as novas idias s suas experincias e necessidades 
prprias. Em Gante, no final dos anos 1570, formou-se uma comisso de dezoito pessoas, com o apoio das guildas de ofcio, pressionando pela introduo imediata da 
reforma calvinista, e em maro de 1579 houve um ataque s casas dos ricos por uma multido que cantava Papen blot, pg. 282 ryckemans goet, "sangue do papa, bens 
do rico". Em Paris, dez anos depois, os defensores da Liga Catlica ergueram barricadas nas ruas, expulsaram Henrique III e formaram uma comisso de dezesseis pessoas 
que, como a de Gante, dizia falar em nome dos artesos e pequenos comerciantes. Esses movimentos populares urbanos alarmaram os lderes nobres da revolta. A comisso 
em Gante foi dissolvida por Guilherme, o Silencioso; a de Paris, pelo duque de Mayenne.38 As atitudes dos camponeses tambm estavam mudando. J em 1563, alguns nobres 
se queixaram ao snodo calvinista de Nmes sobre as doutrinas igualitrias dos seus camponeses. Na Provena, em 1578, camponeses catlicos e protestantes uniram-se 
para incendiar castelos e massacrar nobres. Em 1594, uma assemblia de camponeses rebeldes em Bergerac encerrou-se com os gritos de "libert!" e "vive le Tiers tat!".39
Na Frana, as guerras civis acabaram nos anos 1590; nos Pases Baixos, em 1609 foi assinada uma trgua com a Espanha; mas a Europa central logo viria a se envolver 
na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), em que as batalhas novamente vieram acompanhadas por panfletos, gravuras e canes polticas, ridicularizando ou louvando 
os prncipes, conselheiros e generais. As estampas catlicas mostravam o protestante Frederico, da Bomia, a perambular sem casa, depois de ter sido expulso do seu 
reino; os protestantes ridicularizavam o cardeal Khlesi, conselheiro do imperador Ferdinando II, cantando (com a melodia de O du armer Judas) "O ich armer Khlesi 
/ Was hab ich getan ou parodiando O Welt ich muss dich lassen (acima, p. 250) com O Wien ich muss dich lassen. As profecias tradicionais sobre o "Leo do Norte" 
eram aplicadas a Gustavo Adolfo, da Sucia, e circulavam amplamente em folhetos.40
A ecloso da Guerra dos Trinta Anos tambm coincide com o aparecimento de um novo meio para expressar, ou formar, atitudes polticas, o coranto ou jornal, que talvez 
seja til definir como uma folha ou folhas impressas contendo notcias sobre acontecimentos correntes, publicadas ( esta a inovao) em intervalos curtos e peridicos. 
O primeiro centro jornalstico foi Amsterd, onde as folhas eram publicadas em holands, alemo, francs e ingls. Tendiam a sair uma ou duas vezes por semana. O 
"mensageiro manco" (lame messenger, expresso comum na poca para as notcias) estava ganhando velocidade.41
H muito o que se dizer a favor da idia de que, entre 1618 e 1648, o nmero de europeus ocidentais interessados na poltica era maior do que nunca fora antes. Os 
negcios de Estado invadiam mais as vidas das pessoas, e as informaes polticas circulavam mais amplamente pg. 283 do que antes. Na Repblica Holandesa, houve 
uma torrente de panfletos, estampas e canes referentes a acontecimentos, como o conflito entre o prncipe Maurcio, o filho e sucessor de Guilherme, o Silencioso, 
e Jan van Oldenbarnevelt, executado por "traio" em 1618. Na Itlia, notou-se em 1621 que "at os barbeiros e os outros artesos mais vis {gli altri pi vili artefici) 
estavam discutindo razes de Estado em suas oficinas e locais de encontro", e esse testemunho  plausvel pelo fato de que, entre 1636 e 1646, foram criados jornais 
semanais em nada menos que seis cidades italianas.42
Na Inglaterra e Frana, nos anos 1640, mais que uma torrente, houve um dilvio de panfletos. Na Frana, a Fronda, rebelio contra o governo do cardeal Mazarino, 
incluiu a publicao de cerca de 5 mil mazarinades, algumas delas stiras, outras folhas de notcias. Algumas eram escritas em versos simples e fortes, que qualquer 
um podia entender. Por meio ou um quarto de sou cada, essas mazarinades eram muito mais baratas do que os livretos da Bibliothque Bleue, dando um colorido  afirmao 
de uma delas, segundo a qual todos estavam contra Mazarino:

// n 'est de trou ni de taverne
O choque artisan ne le berne,
Choque compagnon de mtier,
Gaigne-petit et savetier
Jusque aux vendeuses de morues
Enfont des comptes dans les rues.
(No h canto nem taverna / Onde cada arteso no o goze, / Cada oficial diarista, / Amolador ambulante e remendo / At as vendedoras de bacalhau / Comentam-no 
nas ruas.)43

A conscincia poltica popular  ainda mais evidente na Guerra Civil inglesa. Os camponeses ou artesos ingleses haviam participado de acontecimentos polticos anteriores, 
como mostram a peregrinao da Graa, o movimento puritano elisabetano ou as baladas impressas que criticavam a armada espanhola, mas quando os adversrios de Carlos 
I, tal qual os adversrios de Filipe II e Henrique III, apelaram ao povo, este se envolveu num grau sem precedentes. Foram organizadas peties enormes  15 mil 
pessoas assinaram a "Root Branch Petition", 30 mil a petio por justia contra Strafford. O termo poltico demonstration ("manifestao") s comeou a ser usado 
na Inglaterra no incio do sculo XIX, mas  difcil encontrar uma palavra mais apropriada para descrever o comportamento das multides que acompanharam triunfalmente 
Burton, Bastwick e Prynne at Londres, depois de serem pg. 284 libertados da priso em 1640, ou reuniram-se em Westminster gritando "abaixo os bispos" ou "abaixo 
os senhores papistas" durante os trs "Dias de Dezembro" de 1641. Para citar o comentrio crtico de um contemporneo, "havia uma espcie de disciplina na desordem, 
os tumultos estando prontos ao comando, a partir de uma senha". Houve um vasto aumento da informao poltica. Entre 1640 e 1663, o livreiro George Thomason reuniu 
perto de 15 mil panfletos e mais de 7 mil jornais, incluindo sermes, discursos na Cmara dos Comuns, folhetos defendendo a reforma social, folhetos condenando a 
reforma social, e folhas-de notcias, fossem as Joyful News from Shrewvsbury ("Alegres notcias de 'Shrewsbury") ou as Horrible Ne\^s from Hull ("Terrveis notcias 
de Hull"). Havia uma legio de canes e profecias polticas, e s do ano de 1641 sobreviveram cerca de 150 gravuras polticas.44
Assim como nos Pases Baixos e na Frana durante o sculo XVI, da mesma forma surgiram vises mais radicais durante a Guerra Civil inglesa. Os "niveladores" expressavam 
a idia de que "as leis devem ser iguais" e "o povo" (significando os pequenos proprietrios na agricultura e no artesanato) devia escolher os membros dos parlamentos, 
pela razo de que "todo o poder reside originria e essencialmente no conjunto inteiro do povo".  difcil saber o grau de apoio que tinham os "niveladores", ou 
mesmo at que ponto suas idias eram conhecidas, mas ainda mais difcil  resistir  concluso de que a sociedade inglesa em meados do sculo XVII era a sociedade 
politicamente mais consciente da Europa.45
Na segunda metade do nosso perodo, os textos e imagens polticas passaram a integrar cada vez mais a vida cotidiana, deixando de ser apenas uma reao a condies 
excepcionais, como a uma guerra civil. A restaurao de Carlos II no foi suficiente para eliminar o novo interesse por questes polticas. Na poca em que tentaram 
excluir Jaime, duque de York, da sucesso, os whigs organizaram peties, publicaram baladas e estampas, e realizaram marchas polticas como o espetculo do Lorde 
Prefeito. O fato de se comear a usar em ingls o termo "turba" (mob) no final do sculo XVII pode indicar que as classes altas tinham conhecimento  e receio  
da conscincia poltica popular. Na Inglaterra do sculo XVIII, as baladas e panfletos continuaram a ser um importante meio de comunicao poltica, e um sermo 
do controverso telogo tory Henry Sacheverell vendeu 40 mil exemplares em poucos dias (dez vezes mais que o panfleto de Lutero,  nobreza crist, vendido na Alemanha 
cerca de duzentos anos antes). Os rituais polticos populares atingiram seu ponto alto no final dos anos 1760, com as manifestaes em apoio a John Wilkes. Sacheverell 
pg. 285 fora representado na cermica de Staffordshire, o almirante Vernon em medalhas; o feio rosto de Wilkes apareceu em colheres, vasos, cachimbos e botes. 
As estampas agora saam com uma freqncia suficiente para converter a oficina grfica numa instituio poltica, com multides se espremendo nos vidros das janelas 
para ver o mais novo comentrio sobre as questes do dia, da "fraude do Pacfico sul"  Revoluo Americana. Uma estampa, A procisso fnebre da srta. Amrica, vendeu 
16 mil cpias.46
Se h alguma coisa que integrou a poltica  vida comum do povo na Inglaterra do sculo XVIII, pelo menos nas cidades, foi certamente o jornal, com o estmulo da 
lei de Licenciamento de 1695, que abolia a censura prvia. Logo havia vrios jornais  escolha: The Observator, folha whig que, a partir de 1702, saa duas vezes 
por semana; The Rehearsal, uma folha tory fundada por Charles Leslie, em 1704; The Review, editada por Defoe, publicada duas ou trs vezes por semana de 1704 a 1713. 
Como no caso dos livretos populares, temos de perguntar se esses jornais eram acessveis a artesos e outros trabalhadores, mas a resposta parece ser "sim". Um testemunho 
que merece ser levado a srio  o do prprio Leslie, segundo o qual, embora "a maioria do povo ... simplesmente no saiba ler", mesmo assim "eles vo se juntar em 
torno de algum que saiba ler, e ouvir um Observator ou Review (como vi nas ruas)". Quanto ao problema da despesa  um jornal nesse perodo custava dois pence , 
podia ser resolvido das formas descritas por um visitante suo em Londres, em 1726:

A maioria dos artesos comea o dia indo ao caf para a ler as notcias.
Muitas vezes vi engraxates e outras pessoas desse tipo se juntarem todos os dias para comprar um jornal por um liard e l-lo juntos.

Eles tinham boas razes para estarem interessados, em 1726, pois foi quando comeou a sair The Craftsman, um jornal de oposio. Trs anos depois, o prprio Craftsman 
resumiu a situao dizendo "tomamo-nos uma nao de estadistas". Se era verdade, faltam palavras ao historiador que tem de descrever a situao nos anos 1760, quando 
se comprava um nmero de jornais muito maior.47                    
Se havia uma outra nao de "estadistas" na Europa naquela poca, certamente era a Repblica Holandesa. Amsterdam permaneceu por muito tempo o que viera a ser nos 
anos 1620, um grande centro de jornais e notcias, e o duradouro Oprechte Haarlemsche Courant foi fundado em Haarlem em 1656. A tradio do planfleto e da gravura 
poltica, que se estabelecera durante a revolta contra a Espanha, no caducara. Durante as guerras com a Frana, Lus XIV pg. 286 satrizado como tirnico e intolerante, 
tal como ocorrera com Filipe II. O linchamento dos irmos de Witt em 1672 e o estouro da "Bolha" (a "fraude do Pacfico sul") em 1720 foram comemorados em incontveis 
gravuras; entre os artistas, estava o talentoso Romeyn, de Hooghe. Na Escandinvia, embora fosse pequena a populao urbana, podem-se encontrar jornais independentes 
do governo a partir dos meados do sculo XVIII. A Dinamarca tinha o Kobenhavske Post-Tidener (1749), fundado por E. H. Berling, que existe at hoje (com o nome de 
Berlingske Tidende); a Sucia possua o Tidningar (1758), e a Noruega o Efterretninger (1765). A Sucia tinha uma tradio de participao popular na poltica, visto 
que os camponeses estavam representados no Riksdag, e viriam a desempenhar um papel mais importante no incio do sculo XVIII, com lderes como Per Larsson e Olof 
Hkansson, seus porta-vozes respectivamente nos anos 1720 e 1730. Circulavam baladas e impressos sobre questes polticas internas. Com a queda do baro Grtz, um 
alemo empregado por Carlos XII para levantar dinheiro para suas guerras, um folheto expressou o sentimento geral de alegria:

Du har allt ont pfunnit
Det du betala skall...
Msterligt har du jagat
Efter silver och gull.
(Fizeste todos os males / E pagars por isso... / Habilmente perseguiste / Prata e ouro.)

A Dinamarca e a Noruega tiveram seu Grtz no final do sculo XVIII na pessoa de J. F. Struensee, mdico do rei Cristiano VII, amante da rainha e verdadeiro governante 
dos dois reinos, at cair do poder em 1772. Um visitante ingls em Setran, na Noruega, alguns anos depois viu na cabana de um campons "uma gravura do infeliz Struensee 
na priso, atormentado pelo Demnio: essas gravuras, suponho, circulavam e eram recebidas avidamente pelo povo na poca de sua queda".  O final do sculo XVIII tambm 
foi a poca de dois levantes que sugerem que os camponeses noruegueses estavam se tornando politicamente mais conscientes: o Strilekrig, em 1765, quando a regio 
de Bergen rebelou-se contra um novo imposto, e o levante de Lofthus, em 1786, inicialmente dirigido contra o dono de uma fbrica que tinha diminudo os salrios 
de seus empregados, mas que em seguida espalhou-se at abranger diversas provncias. Assim, tanto na Escandivia e Pases Baixos como na Inglaterra, os sistemas liberal-democrticos
 estabelecidos no sculo XIX tinham alguma base na cultura poltica popular do sculo anterior.48   pg. 287 
Em outros lugares da Europa,  mais difcil encontrar provas da conscincia poltica entre artesos e camponeses antes de aproximadamente 1790, quando a situao 
foi transformada de sbito, a partir da Revoluo Francesa. De fato, na Frana o gelo comeara a derreter, ou melhor, se quebrar um pouco antes. Em Paris, por volta 
de 1780, um observador notou que os panfletos de crtica aos ministros eram apregoados abertamente nas ruas, e as conversas nos cafs giravam principalmente em torno 
da poltica. Depois de 1789, a cultura popular francesa se tornou politizada. Apareceram jornais populares e, pelo que consta, um deles, Pre Duchesne, de Hbert, 
escrito num estilo vigorosamente coloquial, atingiu a circulao de 1 milho de exemplares. Os catecismos e almanaques se politizaram. Em 1791, o Almanach de Pre 
Duchesne, apresentando-se como um "ouvrage bougrement patriotique, comentava os acontecimentos do ano anterior; em 1792, o Almanach de Ia Mre Grard publicou os 
direitos do homem e do cidado em vaudevilles, versos populares.49
Os analfabetos podiam acompanhar o que acontecia no s ouvindo os discursos ou leituras, mas tambm olhando as imagens. As estampas polticas, como a famosa gravura 
do campons carregando um nobre e um padre nas costas, agora acrescentavam-se s imagens pias feitas em pinal e outros lugares. Havia pratos polticos e leques 
polticos. Os pratos, manufaturados principalmente em Nevers, traziam inscries como vive Ia libert, vive le Tiers tat, e os leques traziam figuras do general 
Lafayette e da queda da Bastilha. Elaboravam-se novos rituais, alguns modelados a partir de rituais populares tradicionais. O plantio da rvore da liberdade era 
uma verso poltica do plantio do mastro de Maio. Em Rheims, em 14 de julho de 1794, o dia da Bastilha foi comemorado de forma carnavalesca, com o cerco e a tomada 
de um castelo de imitao, cheio de espantalhos.50
Como na Inglaterra dos anos 1640, da mesma forma na Frana dos anos 1790 a participao popular no debate poltico levou ao surgimento de vises radicais. De fato, 
os sans-culottes tinham muito em comum com os "niveladores". Ambos acreditavam na soberania do "povo", entendido este como os pequenos proprietrios; ambos acreditavam 
na igualdade dos direitos; ambos obtinham a maior parte do seu apoio entre os artesos; ambos falharam em conseguir impor suas idias aos lderes da revoluo. Uma 
diferena entre eles  certamente significativa: os militantes sans-culotte eram mais organizados e mais interessados na educao poltica dos seus adeptos em associaes 
populares e assemblias gerais. Quanto aos camponeses franceses, parecm pg. 288 ter adquirido maior conscincia poltica com a Revoluo. Sua hostilidade contra 
os proprietrios de terras, principalmente quando moravam nas cidades, exprimia-se mais abertamente do que antes: Il y  a assez longtemps que ces bougres de bourgeois 
nous menaient",51
As notcias da Revoluo Francesa tiveram um considervel impacto em outras partes da Europa, estimulando as pessoas comuns a pensar que suas injustias tambm podiam 
ser remediadas. No surpreende que isso tenha ocorrido na Repblica Holandesa e na Inglaterra, onde h muito tempo existia uma viva cultura poltica. Nos Pases 
Baixos, contrabandeavam-se panfletos da Frana e formaram-se sociedades para l-los; a velha Repblica foi derrubada; os simpatizantes da Revoluo comearam a usar 
barretes da liberdade ao estilo francs, a plantar "rvores da liberdade" e a danar em volta delas. Na Inglaterra, os comentrios de Tom Paine sobre a Revoluo, 
os Direitos do Homem, logo se tornaram best-seller, e podem ter vendido, s em 1793, 200 mil exemplares. Fundaram-se sociedades radicais pela reforma do Parlamento 
e pelo sufrgio masculino universal.52
Mais significativo, pois com menos precedentes, foi o impacto da Revoluo Francesa na ustria, Itlia e Espanha. Na ustria, conforme observou desalentado o ministro 
da Polcia em 1790, "o material imprprio apresentado em vrios jornais, que so to baratos que at as classes mais baixas esto comprando, est tendo um efeito 
muito prejudicial sobre seus leitores". Mesmo os camponeses tinham seu jornal, o Bauernzeitung ou "Notcias Camponesas", publicado em Graz. Ouviram falar da abolio 
do feudalismo na Frana, e exigiram a abolio dos seus deveres feudais. Um estalajadeiro de Graz, chamado Franz Haas, liderou uma campanha por uma representao 
poltica mais ampla, e um nobre da mesma rea comentou em 1792 que "o povo comum daqui agora fala como todo o espalhafato". Em Viena, em 1792, houve um levante de 
oficiais desempregados, sob a influncia da Revoluo.53
Na Espanha e Itlia, a situao era mais complicada, porque l, como no oeste da Frana, o povo comum levantou-se contra a Revoluo Francesa e seus defensores locais. 
A execuo de Lus XVI foi acompanhada por manifestaes antifrancesas em Barcelona, parte de uma cruzada contra a Revoluo organizada pelos frades, alimentando-se 
da tradicional xenofobia. No entanto, o povo no se limitava a seguir a liderana dos frades. Uma carta de 1795, descrevendo Madri, comenta o interesse popular pelo 
que estava acontecendo na Frana: "Simples carregadores esto comprando jornais". Atravs de sua oposio  Revoluo, os camponeses espanhis, como os camponeses 
do pg. 289 oeste francs, estavam expressando sua hostilidade  burguesia local, que a apoiava. Pode-se dar uma interpretao semelhante sobre os acontecimentos 
de 1799 na Itlia. Na Toscana, houve motins contra o exrcito de ocupao francs e a destruio de "rvores da liberdade"; na Calbria, ocorreram mais motins antifranceses 
e ataques aos "jacobinos", os adeptos locais da Revoluo. Em ambos os casos, assim com na Espanha e na Vendia, o clero local ajudou a organizar os motins, que 
interpretavam como uma defesa da f; mas os amotinados estavam exprimindo no s sua devoo  Igreja, mas tambm sua hostilidade aos estrangeiros e aos ricos.54 
O perodo de 1500 a 1800 certamente termina com uma exploso.
Os episdios descritos nestas ltimas pginas so bem conhecidos, mas no  usual tom-los em conjunto. Quando o fazemos, comeam a adquirir a aparncia de um enorme 
movimento, o da educao poltica do homem comum. H muito a se dizer em favor dessa interpretao. No quero sugerir que a conscincia poltica aumentou constante 
e cumulativamente ao longo do perodo, ou que houve uma espcie de corrida de revezamento, em que os alemes passaram o basto para os holandeses, os holandeses 
para os ingleses, os ingleses para os franceses. A educao poltica do povo comum foi uma educao informal pelos acontecimentos, e assim foi necessariamente intermitente; 
por exemplo, a gerao de franceses que atravessou as guerras religiosas foi obrigada a ser politicamente consciente de uma maneira diferente da dos seus filhos 
e netos. No entanto, a centralizao dos Estados e o crescimento dos exrcitos (tendncias que eram mais constantes do que intermitentes) significavam que a poltica 
estava afetando a vida das pessoas comuns de modo mais direto e mais visvel do que antes. Os governos europeus exigiam cada vez mais de seus sditos entre 1500 
e 1800, com impostos e servios militares. No sculo XVI, os exrcitos podiam contar com dezenas de milhares de homens, mas passaram 2 milhes de homens pelo exrcito 
francs entre 1700 e 1763, enquanto a Rssia tinha perto de meio milho de homens em armas em 1796.55 Os governantes impuseram taxaes mais pesadas aos seus sditos 
para pagar esses exrcitos e empregaram mais funcionrios, em parte para coletar esses novos impostos. Os artesos e camponeses tinham boas razes para estar mais 
conscientes sobre o Estado no final do sculo XVIII do que trezentos anos antes.
O outro grande fator que contribuiu para uma transformao contnua e cumulativa foi a imprensa. As gravuras e panfletos de uma pg.  290 gerao tinham por referncia 
as anteriores. Os jornais faziam saber ao povo que ele no estava sozinho, que outras regies e mesmo outras naes estavam lutando pela mesma causa. Lofthus, o 
lder campons da Noruega, talvez o primeiro cujo apelo estendeu-se alm das fronteiras de uma s provncia, era conhecido pelos contemporneos como "um segundo 
Washington". Se 1648 foi, como 1848, um ano de revolues (ou pelo menos revoltas) europias, em parte pode ter sido porque os diversos rebeldes tinham notcias 
uns dos outros. Na segunda metade do perodo, os jornais e gravuras polticas se tornaram instituies permanentes e proporcionaram a alguns artesos, pelo menos, 
acesso a uma educao poltica mais continuada. Os contemporneos perceberam isso, quer aprovassem ou desaprovassem essa tendncia. No reinado de Carlos II, o censor 
oficial, sir Roger L'Estrange, manifestou-se contrrio aos jornais exatamente por essa razo, pois ler os noticirios "familiariza excessivamente a multido com 
as aes e conselhos dos seus superiores, torna-a pragmtica e crtica demais, e lhe d no s vontade, mas tambm uma espcie de direito e liberdade distorcidos 
de se imiscuir no governo". Os conservadores estavam num dilema. Para impedir que seus adversrios radicais monopolizassem os meios de comunicao, eles teriam de 
fazer seus prprios jornais  como L'Estrange que fez The Observator  e com isso contribuam para as transformaes que desaprovavam. A organizao de manifestaes 
e motins contra a Revoluo Francesa (na Inglaterra, Espanha e Itlia) provavelmente teve um efeito semelhante a longo prazo.56

A RETIRADA DAS CLASSES SUPERIORES 57
Em 1500 ( o que sugere o captulo 2), a cultura popular era uma cultura de todos: uma segunda cultura para os instrudos e a nica cultura para todos os outros. 
Em 1800, porm, na maior parte da Europa, o clero, a nobreza, os comerciantes, os profissionais liberais  e suas mulheres  haviam abandonado a cultura popular 
s classes baixas, das quais agora estavam mais do que nunca separados por profundas diferenas de concepo do mundo. Um sintoma dessa retirada  a modificao 
do sentido da palavra "povo", usada com menor frequncia do que antes para designar "todo mundo" ou "gente respeitvel", e com maior freqncia para designar "a 
gente simples".58 As prximas pginas so uma tentativa de elucidar essa tese da retirada, de responder s perguntas: Quem se retirou? Do que se retirou? Em que 
partes da Europa? E por qu? Pg. 291 O clero, a nobreza e a burguesia tinham suas razes pessoais para abandonar a cultura popular. No caso do clero, a retirada 
fazia parte das reformas catlica e protestante. Em 1500, a maioria dos procos eram homens com nvel social e cultural semelhante ao dos seus paroquianos. Os reformadores 
no estavam satisfeitos com essa situao e exigiam um clero culto. Em reas protestantes, os clrigos tendiam a ser indivduos com grau universitrio, e nas reas 
catlicas, depois do conclio de Trento, os padres comearam a ser formados nos seminrios; nas reas ortodoxas, no houve nenhuma transformao visvel. Alm disso, 
os reformadores catlicos ressaltavam a dignidade do sacerdcio; so Carlos Borromeu dizia ao seu clero que preservasse sua gravidade e decoro onde quer que estivesse. 
O proco do velho estilo que punha uma mscara, danava na igreja durante as festas e fazia piadas no plpito foi substitudo por um novo estilo de padre, mais educado, 
de status social superior e consideravelmente mais distante do seu rebanho.59
Para os nobres e a burguesia, a Reforma foi menos importante do que a Renascena. Os nobres vinham adotando maneiras mais "polidas", um estilo novo e mais autoconsciente 
de comportamento, modelado por livros de boas maneiras, entre os quais o mais famoso era o Courtier de Castiglione. Os nobres estavam aprendendo a exercer o autocontrole, 
a se comportar com uma indiferena estudada, a cultivar um senso de estilo e a andar com um modo altivo, como se estivessem numa dana formal. Os livros de dana 
tambm se multiplicaram, e a dana da corte se isolou da dana do campo. Os nobres deixaram de comer em grandes sales com seus dependentes e retiraram-se para salas 
de jantar separadas (para no falar das salas de visitas, drawngrooms, isto , salas de recolhimento, withdrawing-rooms). Deixaram de lutar corpo-a-corpo com seus 
camponeses, como costumavam fazer na Lombardia, e pararam de matar touros em pblico, como costumavam fazer na Espanha. O nobre aprendeu a falar e a escrever "corretamente", 
segundo regras formais, e a evitar os termos tcnicos e o dialeto usados pelos artesos e camponeses.60 Essas modificaes filham sua funo social.  medida que 
declinou seu papel militar, a  nobreza precisava encontrar outras maneiras de justificar seus privilgios; precisava mostrar que era diferente dos outros. As maneiras 
polidas da nobreza eram imitadas pelos funcionrios pblicos, advogados e comerciantes, que queriam passar por nobres. A retirada de todos esses grupos da cultura 
popular foi tanto mais completa, pois inclua suas mulheres e filhas, que por muito tempo desempenharam a funo de mediadoras (acima, p. 55).  difcil medir o 
desenvolvimento pg. 292 da educao da mulher entre 1500 e 1800, porque grande parte era informal, mais em casa do que na escola. No entanto, a multiplicao de 
tratados sobre a sua educao, de Juan Luis Vives, A educao de uma mulher crist (1529), a Francesco Algarotti, Newtonianismo para senhoras (1737), sugere que 
era crescente o nmero de mulheres de classe alta que partilhavam da cultura dos seus maridos.61
Essa separao entre a cultura de classe alta e a cultura de classe baixa pode ser vista com extrema clareza naquelas partes da Europa onde a imitao da corte significou 
que as classes superiores locais adotaram uma lngua literalmente diferente da do povo. No Languedoc, por exemplo, a nobreza e a burguesia adotaram o francs, que 
os separava (ou exprimia sua separao) dos artesos e camponeses, que s falavam provenal. No Pas de Gales, a fidalguia comeou a falar ingls e a retirar sua 
proteo aos bardos tradicionais, de modo que a ordem dos bardos veio a se extinguir. Nas Terras Altas da Esccia, na poca de Adam Ferguson, o galico, como ele 
disse, passou a ser "uma lngua falada na cabana, mas no no salo nem  mesa de qualquer cavalheiro". Na Bomia, os grandes nobres eram principalmente alemes, 
que tinham recebido suas terras depois da batalha da Montanha Branca, em 1620. Eles, e a corte de Viena,  que davam o tom; em 1670, o jesuta Bohuslav Balbn podia 
observar com amargura que "se na Bomia ouve-se algum falar tcheco, considera-se que ficou com a reputao prejudicada". Algum,  claro, que fosse algum; o tcheco 
era para os camponeses. Na Noruega do sculo XVIII, as pessoas educadas falam dinamarqus, lngua da corte em Copenhague; Holberg, um homem de Bergen, escreveu suas 
peas em dinamarqus. Da mesma forma, na Finlndia as pessoas educadas falavam sueco e abandonaram sua lngua aos artesos camponeses; duas lnguas para duas culturas.62
No foi apenas a lngua das pessoas comuns que foi rejeitada pelas classes superiores, e sim toda a sua cultura. A mudana de atitude que marcou sua retirada da 
participao nas festas populares foi detalhadamente discutida no captulo 8; o clero, a nobreza e igualmente a burguesia estavam interiorizando a moral da ordem 
e do auto-controle. Assim  para tomar dois exemplos quase ao acaso , um poeta holands, ao descrever uma feira rural, escolhe um estilo simuladamente herico para 
exprimir sua atitude de distanciamento divertido em relao s atividades, enquanto um escritor francs, em anos j entrados do sculo XVIII, achou constrangedor 
at mesmo assistir ao Carnaval de Paris, pois "todas essas diverses mostram uma tolice e uma grosseria tal que o gosto por elas se assemelha ao dos porcos".63
As classes superiores no estavam rejeitando apenas as festas populares, pg. 293 mas mantm a concepes de mundo popular, como ajudar a mostrar o exame da transformao 
das atitudes em relao  medicina,  profecia e  feitiaria.
A velha rivalidade entre o mdico formado na universidade e o curandeiro no oficial parece ter adquirido um contedo mais intelectual na poca da revoluo cientfica, 
como podem sugerir alguns exemplos. Em 1603, um mdico italiano, Scipione Mercrio, publicou um livro sobre os "erros populares" no campo da medicina, traando uma 
aguda distino entre as pessoas educadas, que patrocinam verdadeiros mdicos como ele, e as "pessoas comuns" (persone volgari) que correm para a piazza (o prprio 
correr era uma ofensa ao decoro) para ouvir os conselhos de charlates, montimbancchi e "praticantes do mal popularmente conhecidas como feiticeiras". Em 1619, um 
mdico francs, o sieur de Courval, lanou um ataque semelhante contra os charlates, provocando uma rplica de um membro da profisso, ningum menos que o prprio 
Tabarin (acima, p. 119). Uma outra contribuio para esse debate foi a Pseudodoxia Epidemica, de sir Thomas Browne, um estudo sobre "dogmas recebidos e supostas 
verdades correntes, que examinados revelaram-se como erros comuns e vulgares". Sir Thomas era um mdico, e foi sua prtica mdica que lhe deu a oportunidade de observar 
a "disposio errnea do povo", cujo "entendimento inculto" tornava-os crdulos e to facilmente enganados por "saltimbancos, curandeiros e charlates", assim como 
por "leitores da sorte, prestidigitadores, geomantes". Neste ponto, os termos "charlato", "montimbancchi" e "curandeiro" parecem ter adquirido o tom pejorativo 
que, desde ento, sempre mantiveram.64
Um estudioso do assunto recentemente observou que "somente quando os homens inteligentes e cultos deixaram de levar as profecias a srio  que a Idade Mdia realmente 
terminou". Mas quando foi isso? Depende do tipo de profecia. Durante o sculo XVII, as atitudes cultas e populares afastaram-se mutuamente. No sculo XVI, as profecias 
que corriam em nome do "maravilhoso Merlin" tinham sido levadas suficientemente a srio para serem reeditadas na Frana e na Itlia; depois de 1600, "as profecias 
bbadas de Merlin", como chamava-as o puritano William Perkins, foram deixadas de lado. O abade Joachim de Fiore acompanhou Merlin no esquecimento, embora um erudito 
srio como o jesuta Papebroch ainda o julgasse interessante no final do sculo XVII. Outras formas de prognsticos se desgastaram. Em sua carta sobre os cometas, 
Pierre Bayle rejeitou como um erro popular a idia de que o cometa significasse futuras catstrofes e argumentou que os cometas eram fenmenos naturais e nada mais. 
O erudito holands pg. 294 Van Dale e seu vulgarizador francs Fontenelle solaparam com a credibilidade dos orculos do mundo antigo. Apenas as profecias da Bblia 
continuaram a ser levadas a srio pelos cultos. Assim pode-se falar de "reforma da profecia" no sculo XVII, de homens cultos cada vez mais cticos em relao s 
profecias no bblicas e tentando, como Newton, fundamentar mais solidamente o estudo das profecias bblicas. Desde o final do sculo XVII h sinais de um menor 
interesse por profecias, de uma maior inclinao  zombaria. Em 1679, quando um pastor em Lydgate, Yorkshire, levantou o tema do milnio, sua congregao pediu-lhe 
para se ater a "temas mais proveitosos"; em 1688, quando o estadista holands Coenraad van Beuningen comeou a descuidar dos seus negcios para se dedicar  interpretao 
do Apocalipse, isso foi visto como um dos sinais de ter perdido a razo. Para os homens cultos, em 1800, era quase to natural caoar das profecias quanto fora natural 
lev-las a srio trezentos anos antes. Enquanto isso, os livretos populares reeditavam velhas profecias, como as de Mother Shipton, como se nada tivesse acontecido, 
e continuaram a surgir profetas populares; os Strange Effects of Faith ("Estranhos efeitos da f"), de Joanna Southcott, foram publicados em 1801.65
A diviso crescente entre cultura erudita e cultura popular  ainda mais evidente no caso das bruxas. A crena no poder e malignidade das bruxas parece ter sido 
quase universal na primeira metade do nosso perodo. De fato, o final do sculo XVI e o incio do sculo XVII marcaram o apogeu da "bruxomania" europia, com mais 
processos e execues de pessoas acusadas de feitiaria do que nunca antes. A partir de 1650 aproximadamente, porm, o nmero de processos comeou a diminuir, pelo 
menos na Europa ocidental. No porque o povo tivesse parado de se acusar mutuamente de feitiaria, mas porque os cultos tinham deixado de acreditar nela. Se no 
rejeitaram totalmente a idia de feitiaria, pelo menos estavam cada vez mais cticos quanto a acusaes especficas. Na Frana, os magistrados do Parlement de Paris 
pararam de levar as acusaes de feitiaria a srio por volta de 1640, seguidos um pouco depois pelos magistrados das provncias. Em Essex, no sculo XVIII, os fidalgos 
do Grande Jri recusavam indiciaes por feitiaria com o veredicto ignoramus, embora os aldees locais ainda afogassem bruxas. Tanto o clero como os leigos cultos 
estavam modificando suas mentalidades. Em 1650, por exemplo, o cardeal Barberini escreveu ao inquisidor de Aquilia sobre um caso de bruxaria, dizendo que era "muito 
incompleto (molto diffectuoso), porque praticamente nada do que ele confessou foi comprovado", critrio com o qual os juizes no tinham propriamente se incomodado 
muito em processos anteriores. Pg.  295. A diferena que se poderia encontrar no sculo XIII entre a atitude de um pastor culto e a do seu rebanho aparece claramente 
numa estria de Boswell. Quando Johnson e ele visitaram as Hbridas, um clrigo lhes disse que:

... a crena na feitiaria, ou sortilgios, era muito comum, tanto que ele teve vrios processos sob sua alada ... contra mulheres, por terem desviado o leite das 
vacas do povo. Ele os desconsiderou, e agora no h o menor vestgio dessa superstio. Ele pregou contra ela, e a fim de oferecer uma prova slida ao povo de que 
a no havia nada, disse no plpito que todas as mulheres da parquia poderiam vir tirar o leite das suas vacas, desde que no encostassem nelas.66

Esse afastamento da cultura popular no ocorreu numa s gerao, mas em diferentes pocas e em diversas partes da Europa. O processo nunca foi descrito to detalhadamente 
quanto mereceria, mas aqui s cabe tratar de forma impressionista alguns poucos exemplos, observando algumas regies onde essa retirada ocorreu antes e outras onde 
ocorreu relativamente tarde.
Na Itlia, os ideais literrios e sociais formulados nos anos 1520 por Bembo e Castiglione implicavam uma rejeio da cultura popular, e existem provas sobre a crescente 
separao entre as diverses dos pobres e as dos ricos em Florena e Roma no final do sculo XVI. Contudo, o processo de retirada foi muito menos definido na Itlia 
do que na Frana ou na Inglaterra; mesmo no sculo XVIII, muitos italianos cultos continuaram a partilhar das crenas populares sobre magia e feitiaria.67
Na Frana, parece ter havido um processo gradual mas constante de retirada entre 1500 e 1800. Em Paris, no incio do sculo XVI, os artistas amadores do Basoche 
deixaram as ruas e praas por apresentaes fechadas no Parlement, para um pblico mais exclusivo. Em meados do sculo XVI, os poetas da Pliade rejeitaram formas 
literrias populares como os rondeaux, ballades e virelais, preferindo algo mais prximo s normas clssicas. Mas no incio do sculo XVII, o novo ideal aristocrtico 
do "homem de honra'' (honnte homme), ao estilo do corteso de Castiglione, estava tornando obsoletos os velhos romances de cavalaria. Guerreiros como Ogier, o Dinamarqus, 
e Reynaud de Montauban, afinal, eram diamantes brutos, sem o polimento agora exigido ao cavalheiro. Foram abandonados  Bibliothque Bleue, para serem substitudos 
por um novo tipo de heri aristocrtico, menos impulsivo e mais autocontrolado, que figura nas peas de Racine e nos pg. 296 romances de Lafayette. A formulao 
dos ideais lingisticos e literrios do Classicismo francs, por Vaugelas e Boileau, implicou a rejeio da maioria das canes populares tradicionais, como brbaras 
e irregulares; Boileau emprega Pont-Neuf, onde os cantores de baladas se apresentavam, como smbolo do que deve ser evitado na boa poesia. A retirada de Lus XIV 
de Paris para Versalhes ajudou a aumentar o fosso entre a cultura cortes e a cultura popular; ao contrrio do seu pai, Lus no assistia a festas populares em Paris, 
como as fogueiras da noite de so Joo. Os comediantes italianos, outrora populares na corte, agora pareciam indignos demais para olhos e ouvidos cultos e foram 
relegados s feiras. O final do sculo XVII tambm foi a poca da difuso do jansenismo entre os procos, agora cada vez mais provenientes de seminrios, que comearam 
a se distanciar das "supersties" do seu rebanho. Na mesma poca, os magistrados dos tribunais deixaram de levar a feitiaria a srio. A diviso se acentuou ainda 
mais no sculo XVIII. Os nobres, at ento, geralmente moravam em suas propriedades rurais e participavam dos negcios e divertimentos da comunidade local; no sculo 
XVIII, a maioria deles vinha trocando o campo pela cidade, tornando-se forasteiros em suas prprias regies. Os sulistas educados no s falavam o francs, ao invs 
de provenal, como tambm aprenderam a expurg-lo de expresses regionais, a julgar pelo sucesso de Les gasconismes corrigs (1766), um livro que ensinava-os a dizer 
no Carnaval, mas Mardi Gras;  no montagnois, mas montagnards; no soir, mas nuit, e assim por diante. No final do sculo XVIII, Rousseau podia zombar da idia 
de que "a pessoa tem que se vestir de modo diferente do povo, falar, pensar, agir, viver de modo diferente do povo".68
Tambm na Inglaterra a retirada das classes superiores veio relativamente cedo. No reinado de Elizabeth, as referncias dos cultos aos menestris e suas baladas 
passaram a ter um ar cada vez mais condescendente,  medida que se produzia o impacto dos ideais literrios da Renascena. Sir Philip Sidney, que achava Chevy Chase 
comovente, ainda assim lamentava seu "estilo rude", como dizia. A Art of English Poesie ("A arte da poesia inglesa"), de Puttenham (1581), faz uma distino explcita 
entre "poesia vulgar", criada pelo "instinto da natureza" (incluindo qualquer coisa, das canes dos ndios do Peru s baladas inglesas tradicionais), e "poesia 
artificial", criada pelos cultos. Sem dvida, ele preferia a segunda; "artificial", na poca,  um termo elogioso. O ensasta-fidalgo sir William Cornwailis escreveu 
sobre a cultura popular com um misto de curiosidade, distanciamento e desprezo: pg. 297

... panfletos, e estrias e notcias mentirosas, e poetas baratos, eu podia conhecer, mas tomando cuidado em no me familiarizar com eles: meu costume  l-los, 
e logo us-los, pois eles ficam na minha privada ... No me envergonho em arriscar meus ouvidos com um cantador de baladas ... em ver mortais satisfeitos com uma 
tolice to grosseira ... ver quo plenamente os ouvintes se sentem tocados, quais os estranhos gestos que vm deles, que asneira forada vem do seu poeta.

No incio do sculo XVII, os teatros pblicos, onde Shakespeare fora encenado igualmente para nobres e aprendizes, no eram mais suficientemente bons para as classes 
superiores, e montaram-se teatros particulares, onde uma cadeira custava seis pence. A jiga elisabetana, uma pea satrica de um ato, cantada e danada, fora popular 
entre todos, mas, para os dramaturgos que agora escreviam para os novos teatros particulares, "jiga" tornou-se uma palavra pejorativa, referindo-se a uma forma "baixa" 
de arte. Tanto na Inglaterra como na Frana, as classes superiores vinham freqentando cada vez mais os mestres de danas, para aprender danas mais respeitveis* 
A fidalguia inglesa estava ficando mais bem-educada; no final do sculo XVI e comeo do sculo XVII, iam em nmero crescente para Oxford e Cambridge. Estavam passando 
mais tempo em Londres, onde podiam observar os costumes da corte, ou em capitais do interior como York e Norwich, e isso, tanto quanto sua educao universitria, 
vinha-os separando (em termos culturais) dos seus arrendatrios. Nas suas terras, desistiram de convidar esses rendeiros para refeies no salo principal, ocasies 
tradicionais para a apresentao de menestris e bufes. Os bufes estavam caindo de moda; Carlos I foi o ltimo rei da Inglaterra a ter um bobo da corte. Tal como 
a nobreza francesa, a fidalguia inglesa abandonou o romance de cavalaria s classes baixas. Dos meados do sculo XVII em diante, Guy of Warwick eBevis of Hampton 
s foram reimpressos em brochuras populares. No final do sculo XVII, os cultos estavam comeando a julgar a crena em bruxas como uma caracterstica de "gente que 
tem o discernimento e a razo mais fraca, como mulheres, crianas e pessoas ignorantes e supersticiosas". No sculo XVIII, lorde Chesterfield recomendou ao seu filho 
que evitasse "provrbios comuns", que eram "provas de se ter associado a gente baixa e m".69
Nas partes do norte e leste da Europa, a retirada das classes superiores da cultura popular parece ter vindo mais tarde do que na Frana e na Inglaterra. Na Dinamarca, 
por exemplo, parece que as baladas e livretos fizeram parte da cultura da fidalguia at o final do sculo XVII, quando foram abandonados sob a influncia de modelos 
de comportamento pg.298 franceses. Como o Boileau dinamarqus, T.C. Reenberg, disse em sua Arte potica:

Det der nu er
Fordmt til Borgestuer
Er fordum bleven lst og hrt
Med Lyst dle Fruer.
(O que agora foi expulso para a cozinha / E cervejarias e cocheiras, / Outrora foi lido e ouvido com prazer / Por damas em sales principescos.)

Os novos ideais foram expressos com vigor e esprito por Ludvig Holberg, um outro admirador de Boileau e do Classicismo francs, cujos poemas e peas freqentemente 
zombam da literatura e crenas do povo. Sua pea Heexerie eller Blind Alarm ridicularizava a crena em bruxas, e seu pico burlesco Peder Paars zomba do entusiasmo 
por Ogier, o Dinamarqus e outros romances de cavalaria.70
Mais a leste, a transformao parece ter sido ainda posterior. A fidalguia polonesa continuou a ler livretos como Melusine e Magelona at a metade do sculo XVIII, 
quando foram substitudos por fico ocidental importada, como Richardson e Fielding, Lesage e Prvost. Os processos de feitiaria atingiram seu auge na Polnia 
quando j estavam declinando na Europa ocidental, e foi s no fim do sculo XVIII que comearam a desaparecer. Tambm na Hungria o sculo XVIII parece ter sido a 
poca em que a aristocracia e a fidalguia retiraram-se da cultura popular; comearam a ler Richardson e Rousseau, a preferir msica alem e italiana moderna, ao 
invs da msica tradicional de foles, que ocupara um lugar de honra nas casas nobres durante o sculo XVIII. Pode-se ver at que ponto fora completa essa retirada 
no final do perodo atravs de uma estria contada por Zoltan Kodly. Um dia, em 1803, o poeta Benedek Virg ouviu algum cantando uma cano folclrica do lado 
de fora da sua janela; ele no ouviu o final, e ento perguntou ao seu amigo Kazinczy. No lhe ocorreu abordar o prprio campons. "Kazinczy morava a uma distncia 
de sete dias de viagem, mas Virg pediu-lhe para completar a letra de uma cano que facilmente poderia ter descoberto por si s, atravessando o seu prprio porto. 
71
Tambm na Esccia, o sculo XVIII parece ter sido a poca em que as classes superiores se retiraram da cultura popular. Scott descreveu esse processo em termos muitos 
semelhantes aos de Reenberg, quanto ao declnio da poesia do menestrel, passando das "cortes dos prncipes e sales dos nobres" para "os freqentadores do rstico 
banco pg.299 da cervejaria. Em Edimburgo, as pessoas respeitveis deixaram as tavernas, onde costumavam beber junto com artesos e pequenos comerciantes. Nos campos 
em torno de Edimburgo, os mmicos perderam as boas graas da fidalguia, como lembra um fidalgo:

Como seus versos eram meras algaravias sem sentido, e seu comportamento excessivamente turbulento, o costume se tornou intolervel; de modo que ... foram em geral 
enxotados e proibidos em todas as famlias decentes, e no final reduziram-se a nada, embora em alguns poucos casos tenham sido vistos at o ano 1800 ou mais tarde.

O dialeto local foi rejeitado como provinciano e incorreto. Os "escocesismos", tal como os "gasconismos", foram corrigidos, e os leitores do livro de James Beattie 
sobre o assunto foram advertidos para nunca dizerem clattering ("vozerio) quando queriam dizer chattering ("tagarelice"), nem dubiety ("dubiedade") quando queriam 
dizer doubt ("dvida"). Pode-se imaginar facilmente como as pessoas cultas agora encaravam a msica de gaita de foles e as baladas tradicionais. Adam Smith pode 
ser tomado como porta-voz das novas atitudes, que alis se tornaram antiquadas em 1780, quando um entrevistador perguntou-lhe sobres seus gostos literrios, e recebeu 
essa resposta incisiva:

 dever do poeta escrever como um cavalheiro. Desagrada-me aquele estilo grosseiro que alguns julgam conveniente chamar de linguagem da natureza e da simplicidade, 
e assim por diante. Nas Reliques de Percy ...umas poucas passagens tolerveis esto enterradas sob um monte de lixo.72

 provvel que os nobres russos estivessem entre os ltimos europeus a abandonar suas tradies populares, apesar dos esforos de Pedro, o Grande, em "ocidentaliz-las". 
(Seu gosto pelos bufes e bufoneria sugere que ele prprio no estava totalmente ocidentalizado.) Tem-se afirmado que o pblico aristocrtico do lubok, o livrinho 
popular ilustrado, desapareceu no sculo XVII, e o uso do francs pela alta nobreza sugere uma retirada consciente da cultura popular. No entanto,  improvvel que 
essa retirada fosse completa em 1800. Os leitores de Guerra e paz e outros romances russos lembraro que os nobres conservavam anes e bufes em suas residncias, 
e que as mulheres nobres veneravam santos loucos e cones da mesma forma que os camponeses. Em suas memrias, o nobre Aksakov lembrava que seu av costumava ir para 
a cama ouvindo skazki, contos folclricos, narrados pela sua governante serva. Quanto aos comerciantes e funcionrios, por volta de 1800 ainda se encontravam  noite 
para ouvir baladas tradicionais.73 pg.300
A retirada da cultura popular ocorreu em ritmos diferentes em diferentes partes da Europa, mas a tendncia principal parece bastante clara. Da mesma forma, a explicao 
principal tambm parece bastante clara, quaisquer que sejam as nuanas locais, e por interessante que seja apresent-las; e essa explicao  que a cultura erudita 
certamente transformou-se com grande rapidez entre 1500 e 1800, a era da Renascena da Reforma e Contra-Reforma, da Revoluo Cientfica e do Iluminismo (e cada 
um desses termos  uma abreviatura de um movimento no s complexo, mas em contnua transformao). A cultura popular europeia esteve longe de ser esttica durante 
esses trs sculos, mas na verdade no se transformou, e nem poderia, com tanta rapidez. Como vimos, existiam todos os tipos de contatos entre a cultura erudita 
e a cultura popular. Mascates distribuam livros e panfletos de Lutero e Calvino, Voltaire e Rousseau; pintores camponeses imitavam o barroco e o rococ com o auxlio 
de gravuras. No entanto, isso no foi suficiente para impedir que aumentasse o fosso entre a cultura erudita e a popular, pois as tradies orais e visuais no conseguiriam 
absorver rpidas transformaes ou, para mudar a metfora, elas eram resistentes s transformaes, acostumadas a tomar o novo e transform-lo em algo muito semelhante 
ao antigo (acima, p. 73). Uma cultura popular em rpida transformao, supondo que algum o desejasse, teria sido impossvel nos incios do perodo moderno, que 
no dispunha da base institucional e econmica para tanto. Mesmo que se tivessem fundado as escolas necessrias e remunerado os mestres-escolas, muitos artesos 
e camponeses no poderiam se dar ao luxo de abdicar da contribuio resultante do trabalho dos seus filhos. No sculo XIX, o crescimento das cidades, a difuso das 
escolas e o desenvolvimento das estradas de ferro, entre outros fatores, tornaram possvel e at inevitvel a rpida transformao da cultura popular;  por isso 
que este estudo sobre a cultura popular tradicional se encerra por volta de 1800.

DA RETIRADA  DESCOBERTA
Assim como o fosso entre as duas culturas ampliou-se gradativamente, da mesma forma algumas pessoas cultas comearam a encarar as canes, crenas e festas populares 
como exticas, curiosas, fascinantes, dignas de coleta e registro. pg.301
Os primeiros compiladores tinham o que se pode chamar de "mentalidade pr-diviso". Eles achavam que as baladas e provrbios que transcreviam e publicavam eram uma 
tradio que pertencia a todos, no s ao povo comum.  a atitude, por exemplo, de Heinrich Bebel e Sebastian Franck. Bebel era filho de um campons subio, mas 
tornou-se um humanista conhecido, professor na universidade de Tbingen. Em 1508, publicou uma coletnea de provrbios alemes e uma antologia de estrias engraadas, 
ambas traduzidas para o latim. Nas duas coletneas, ele recorreu  tradio oral, e muitas de suas estrias se passavam na sua Subia natal. Portanto, ele tem sido 
apresentado como um "folclorista" da Renascena, o que  um pouco enganador. Bebel oferece seus provrbios como exemplos da sabedoria alem tradicional, sem sugerir 
que pertenam aos camponeses em particular. Seu livro de piadas inclui o que chamaramos de "contos folclricos", mas para Bebel eram apenas "contos". Podem-se fazer 
observaes semelhantes a propsito de Sebastian Franck, que tambm publicou uma coletnea de provrbios alemes (desta vez, na lngua original) e ainda em Weltbuch, 
uma descrio dos povos do mundo, suas crenas, costumes e cerimnias. Franck tambm tem sido apresentado como um folclorista, mas ele no distingue, assim como 
Bebel, entre cultura erudita e popular. Ele achava que seus provrbios expressavam a sabedoria da humanidade, e seu Weltbuch descreve diversas naes sem distinguir 
os grupos sociais dentro delas. No mundo germanfono, o interesse pela cultura popular como algo distinto da cultura erudita parece remontar no alm de Friedrich 
Friese, que publicou um estudo das "cerimnias notveis dos camponeses de Altenburg" em 1703.74
Os "pioneiros" escandinavos dos folcloristas, assim como Bebel e Franck, tampouco tinham conscincia de qualquer diviso entre cultura erudita e cultura popular, 
decerto porque a diviso chegou tarde a essas regies. Anders Vedel, por exemplo, que foi preceptor do grande astrnomo Tycho Brahe, publicou em 1591 uma coletnea 
de cem baladas dinamarquesas. O prefcio, dirigido  rainha Sofia, recomenda as baladas como "antigidades histricas", "documentos" valiosos que falam de "antigos 
reis e batalhas". No h nenhuma sugesto de que essas canes pertenam s pessoas comuns; elas so apresentadas como "canes dinamarquesas" (Danske viser), no 
como "canes folclricas" (folkeviser), termo que s veio a ser usado no sculo XIX. Por outro lado, diz-se que o rei Gustavo Adolfo, da Sucia, teria indicado 
uma "comisso de folclore". Graas ao conselho de Johan Bure, um famoso antiqurio e ex-preceptor do rei, Gustavo realmente indicou uma comisso para percorrer a 
Sucia e pesquisar runas, baladas, pg.302 moedas, trajes, ferramentas e mtodos de agricultura e pesca. No entanto, a incluso de runas e moedas na lista sugere 
que Bure e seu sucessor Johan Hadorph estavam mais interessados em antigidades suecas do que em antigidades especificamente populares. Eles incorporavam-se  tradio 
de Flavio Biondo e William Camden, no  de Herder. Um caso de interpretao mais difcil  o do clrigo e erudito Peder Syv, que reeditou a coletnea das baladas 
de Vedel em 1695, acrescida de uma introduo histrica e mais cem textos. Tambm escreveu um tratado Sobre os erros do vulgo (incluindo, por exemplo, a crena em 
frmulas mgicas).  como se ele rejeitasse a cultura popular, copo seu contemporneo Holberg, mas no considerasse as velhas baladas como parte dela.75
Depois de aproximadamente 1650,  possvel encontrar pessoas eruditas, na Inglaterra, Frana e Itlia que distinguem entre cultura erudita e cultura popular, rejeitam 
crenas populares, mas consideram-nas um objeto de estudo fascinante. John Aubrey  um exemplo bvio. Sua atitude era a de que os velhos costumes e fbulas das 
mulheres velhas so coisas grosseiras: mas ainda assim no se deve descart-las totalmente: pode haver uma certa verdade e utilidade a se extrair delas. Alm disso, 
 um prazer considerar os erros que envolveram pocas anteriores: como tambm o presente".76 Os clrigos eruditos do final do sculo XVII e incio do sculo XVIII 
viam a cultura popular numa perspectiva semelhante. Eles coletavam informaes sobre costumes e "supersties", desaprovavam grande parte do que coletavam, mas mesmo 
assim continuaram a coletar. Um exemplo famoso foi Jean-Baptiste Thiers, filho de um estalajadeiro que se tornou padre rural com pretenses de reformador da religio 
popular. Escreveu um tratado defendendo a reduo dos dias de festa, um outro atacando a profanao das igrejas por vendedores ambulantes que se estabeleciam nos 
prticos, e um terceiro, o mais famoso, sobre supersties, que oferece muito mais detalhes do que exigiria uma simples condenao. O mesmo pode-se dizer de Henry 
Bourne, cura em All Saints, Newcastle, que publicou em 1725 um livro (em ingls) chamado Antiquitates Vulgares ("Antiguidades populares"), sobre "cerimnias e opinies, 
que so mantidas pelas pessoas comuns". O tom  crtico, distinguindo entre "o que pode ser retido e o que deve ser deixado de lado"; mas a riqueza de detalhes sobre 
mgicas, dias de Maio, carros alegricos, ceias de colheita e tudo o mais tornaram o livro til para vrias geraes de folcloristas posteriores, que no tinham 
o zelo reformador de Bourne. O mais importante entre todos esses clrigos eruditos, do ponto de vista europeu, foi L. A. Muratori, padre de idias rgidas e pg.303 
antiqurio cuja indicao para o cargo de bibliotecrio, pelo duque de Mdena, deu-lhe o tempo livre e o acesso a livros que lhe eram necessrios. Muratori escreveu 
um ensaio fascinante sobre o poder da fantasia, onde sugeria que as bruxas e suas vtimas sofriam igualmente de um excesso de imaginao. Sua maior obra  uma coletnea 
de ensaios sobre antiguidades italianas, incluindo "as sementes de superstio nas pocas de obscuridade na Itlia", desde o julgamento por ordlio at o ritual 
do tronco de Natal. Interessado em refutar o que chamou de "as ridculas tradies do vulgo ignorante", Muratori tambm se interessou em reconstru-las.77
Enquanto esses clrigos estudavam a histria da religio popular, alguns leigos vinham se interessando pela poesia popular. Com Puttenham (acima, p. 297), Montaigne 
distinguia entre poesia popular e poesia artstica; ao contrrio de Puttenham, ele apreciava ambas:

A poesia que  popular e absolutamente natural tem uma inocncia e uma graa comparveis s maiores belezas da poesia artstica, como se pode ver nas villanelles 
da Gasconha e nas canes que foram trazidas de naes que no tm nenhum conhecimento de qualquer cincia ou nem mesmo da escrita.

Montaigne era capaz de ver beleza em canes populares onde, por exemplo, Du Bellay no conseguiria. Durante sua visita  Itlia, Montaigne interessou-se muito por 
uma camponesa analfabeta que improvisava versos (acima, p. 128); defendeu os artistas ambulantes contra seus crticos e props que deveriam receber algum tipo de 
apoio cvico. Essas atitudes, evidentemente, estavam relacionadas com sua crtica  "civilizao" de sua prpria poca. O caso de Malherbe  de interpretao mais 
difcil. Malherbe no era nenhum defensor da selvageria; era um poeta da corte cuja principal preocupao era a de purificar a linguagem literria e escrever versos 
que fossem polidos e corretos. Em certo sentido, ele pertence, com Boileau, ao movimento de retirada da cultura popular descrito na ltima seo. Mas um dia um colega 
encontrou Malherbe deitado na cama, cantando uma cano folclrica, D'ou venez-vous Jeanne? "Eu preferia ter escrito esta cano", Malherbe lhe disse, "do que todas 
as obras de Ronsard". Quando as pessoas interrogavam Malherbe (como freqentemente faziam) sobre questes de uso do francs, ele enviava-as aos seus "mestres" em 
lngua, os doqueiros de Port-au-Foin. Seu ideal de linguagem e literatura era uma simplicidade natural; uma simplicidade que, como a elegncia de um corteso de 
Castiglione, geralmente exige muito trabalho rduo para se conseguir. Se uma cano popular calhava como exemplo dos seus pg.304 ideais, Malherbe a elogiava; no 
estava interessado no popular em si. Mas  difcil imaginar o que um cantor tradicional de baladas  ou os doqueiros de Port-au-Foin  teria feito com os poemas 
de Malherbe.78
Os contos folclricos, assim como as cantigas populares, tinham uma atrao para alguns intelectuais na Frana do sculo XVII. Na corte de Lus XIV, os contos de 
fadas estavam na moda. Alguns escritores at chegaram a publicar suas verses pessoais: madame D'Aulnoy, mademoiselle Lheritier e o alto funcionrio do governo Charles 
Perrault (embora no tenha posto seu nome na pgina de rosto da primeira edio). Na gerao seguinte, a tradio foi mantida pelo conde de Caylus, que fundou a 
"academia do mascate" e publicou estrias recolhidas de mulheres que contavam-nas enquanto descascavam ervilhas. Perrault e os outros no levavam os contos folclricos 
totalmente a srio, ou pelo menos no queriam admiti-lo; mas achavam as estrias fascinantes.  como se as pessoas cultas comeassem a sentir que precisavam de uma 
vlvula de escape do mundo desencantado, do universo intelectual cartesiano em que ento viviam. Era exatamente o no-cientfico, o fantstico que os atraa nos 
contos folclricos, assim como atraiu os historiadores da "superstio".79
A atitude de Joseph Addison em relao  literatura popular est a meio caminho entre Malherbe e Perrault. Em trs ensaios em The Spectator, em 1711, ele surpreendeu 
seus leitores discutindo duas baladas, Chevy Chase e The Two Children in the Wood ("As duas crianas na floresta"), Addison, como outros escritores da sua poca, 
acreditava que a boa literatura obedecia a regras universais, e assim ele discute Chevy Chase como "um poema herico", comparando-o a Eneida. O que o impressiona 
particularmente  a "majestosa simplicidade do poema, em contraste com o que chama de "maneira gtica no escrever", em outras palavras, os estilos metafsico e 
barroco; quase chega a apresentar essas baladas como exemplos do Classicismo. Ao mesmo tempo, Addison reconhece, ainda que se justificando, um interesse geral na 
literatura popular:

Quando viajei, senti especial prazer em ouvir as canes e fbulas que vm de pai para filho, e so extremamente correntes entre o povo comum das regies por onde 
passei; pois  impossvel que algo que seja universalmente experimentado e aprovado por uma multido, ainda que seja apenas a ral de uma nao, no tenha em si 
alguma aptido para agradar e satisfazer a mente humana. pg.305

 esse "especial prazer" que ir se tornar to na moda mais tarde, no sculo XVIII, e com ele a ideia, aqui expressa com certa hesitao, de que os valores das pessoas 
comuns no devem ser rejeitados. A civilizao tem seu preo. Da mesma forma, Thomas Blackwell, num estudo sobre Homero publicado em 1735, sugeriu que Homero teve 
sorte em viver numa poca em que os costumes eram "simples e sem afetao" e a linguagem no era "totalmente polida no sentido moderno". Robert Lowth, discorrendo 
sobre a poesia sacra dos hebreus, sugeriu que ela era menos polida e mais sublime do que a poesia dos gregos.80
Herder conhecia alguns desses predecessores e aprendeu com eles. Seu Volkslieder tira suas epgrafes de Addison, Sidney e Montaigne. Mas, se olharmos os trezentos 
anos discutidos neste livro, a transformao nas atitudes dos homens cultos parece realmente notvel. Em 1500, desprezavam as pessoas comuns, mas partilhavam da 
sua cultura. Em 1800, seus descendentes tinham deixado de participar espontaneamente da cultura popular, mas estavam-na redescobrindo como algo extico e, portanto, 
interessante. Estavam at comeando a admirar "o povo", do qual brotara essa cultura estranha. pg.306
